Pai da Guiné luta para encontrar filhos vítimas de tráfico de pessoas ligado ao esquema QNET, cativeiro em Serra Leoa e US$25 mil pagos a criminosos

Relato de Musa, operação da Interpol em Makeni, resgates, abusos e dados sobre impunidade no tráfico de pessoas na África Ocidental

Musa viajou de sua aldeia na região de Faranah, na Guiné, até Makeni, em Serra Leoa, em busca de dois filhos desaparecidos, após pagarem a criminosos que prometeram trabalho no exterior.

O pai descreve sofrimento profundo, com mensagens gravadas dos filhos que o deixaram desesperado, e diz, “Meu coração está destruído”, “Não consigo parar de chorar. Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor”.

O caso de Musa mobilizou a unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, e levou a batidas em imóveis onde jovens eram mantidos em cativeiro, em condições precárias, conforme informação divulgada pelo g1

Operação de resgate e buscas em Makeni

A equipe policial, convidada pela Interpol local, encontrou em um imóvel bolsas e roupas espalhadas, e estimação de 10 a 15 pessoas por quarto, entre elas adolescentes de 14 anos.

Segundo Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico em Serra Leoa, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.

A batida reuniu os ocupantes para triagem, e 19 foram devolvidos à Guiné, mas os filhos de Musa não foram encontrados no local, apesar de um jovem afirmar que eles haviam estado ali na semana anterior.

Como funciona o golpe do suposto recrutamento QNET

Na África Ocidental, gangues usam o nome da empresa QNET para atrair vítimas com promessas de emprego em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa.

Os traficantes cobram grandes somas adiantadas, muitas vezes pedindo que a vítima recrute outras pessoas, e então transferem os alvos para países vizinhos, como Serra Leoa, onde ficam retidos sem nunca embarcar rumo ao trabalho prometido.

A própria QNET lançou campanhas na região com o slogan “QNET contra os golpes”, rejeitando ligação com o tráfico, enquanto criminosos exploram o nome da marca como cobertura.

Depoimentos de vítimas e formas de exploração

A jovem identificada como Aminata relatou que pagou US$ 1 mil, e que, quando o apoio dos recrutadores terminou, precisou “vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.

Ela descreveu o método de coerção emocional, com passaportes e fotos fabricadas para simular viagem ao exterior, e o uso de um número internacional para fazer parecer que os recrutadores já estavam fora do país.

Outras vítimas contaram que foram forçadas a recrutar familiares e amigos para manter a promessa de viagem, e que as condições de confinamento e humilhação deixaram marcas profundas.

Desafios para combater o tráfico e dados sobre impunidade

A polícia em Serra Leoa informou ter realizado mais de 20 batidas como essa no ano passado, resgatando centenas de vítimas, e detendo 12 suspeitos, mas poucas prisões resultaram em condenações.

Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”, um indicativo das dificuldades para levar traficantes à justiça.

Musa voltou para a Guiné sem os filhos no fim de setembro, e a filha retornou a outro local do país sem querer falar com o pai, mostrando a vergonha e o trauma que muitas vítimas carregam.

O paradeiro do filho permanece desconhecido, e policiais afirmam que, apesar das operações e alguns resgates, a combinação de fronteiras porosas, rotas informais e poucos recursos dificulta a erradicação do tráfico de pessoas na região.