Pai da Guiné luta para encontrar filhos vítimas de tráfico humano ligado a QNET, pagou US$ 25 mil e participou de operações policiais em Serra Leoa
O caso revela como recrutadores usam a marca QNET como cobertura, promessas de emprego no exterior e cobrança de altas taxas, enquanto famílias seguem sem respostas
Foday Musa não vê seus filhos há dois anos, e a última mensagem de voz que recebeu o deixou em choque, com um filho chorando e implorando por ajuda.
Ele diz que “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los”, e viajou até Serra Leoa em busca de pistas e de justiça.
A atuação de uma unidade especializada da polícia, com apoio da Interpol, salvou centenas de jovens em batidas, mas muitos responsáveis continuam impunes, e as famílias seguem sem garantia de retorno, conforme informação divulgada pelo g1.
Operação de resgate em Makeni
A unidade contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa, com apoio internacional, conduziu batidas em imóveis onde jovens eram mantidos, muitos deles vindos de países vizinhos.
Durante uma ação em Makeni, a polícia encontrou quartos com 10 a 15 pessoas, bolsas e roupas pelo chão, e vítimas que tinham apenas 14 anos, segundo relatos das equipes.
O chefe de investigações Mahmou Conteh afirmou, em entrevista citada pela reportagem, que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, e que o caso da família de Musa foi tratado como prioritário.
Musa participou de uma batida onde foi indicado que seus filhos haviam passado pelo local uma semana antes, e apesar de dezenas de resgatados retornarem à Guiné, o paradeiro do filho de 22 anos ainda é desconhecido.
Como o nome QNET é usado pelos criminosos
A rede QNET, empresa legítima criada em Hong Kong, vende produtos e recruta revendedores, mas criminosos na África Ocidental têm usado o nome como fachada para esquemas de tráfico.
Os traficantes prometem empregos nos Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa, e cobram pagamentos adiantados supostamente para taxas administrativas, depois transferem as vítimas para países vizinhos, onde as mantêm em cativeiro.
A própria QNET lançou campanhas na região com o slogan “QNET contra os golpes”, tentando alertar a população sobre golpistas que se passam por recrutadores da marca.
Depoimentos de vítimas e métodos de coerção
Vítimas como Aminata relatam ter pago cerca de US$ 1 mil para participar de um programa que prometia curso e trabalho no exterior, e acabaram retidas por meses em condições degradantes.
Aminata descreveu que no início os recrutadores davam comida e cuidado, e que, “Quando eles recrutam, eles dão comida e cuidam de você. Mas, com o passar do tempo, eles deixam de fazer isso”.
Em certo momento, segundo ela, foi informada de que precisaria “vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, o que revela o nível de exploração a que muitas jovens foram submetidas.
Impunidade e desafios das autoridades
Apesar das centenas de resgates e de mais de 20 batidas relatadas por autoridades em um ano, poucas condenações foram efetivadas na região.
Dados citados na reportagem indicam que “Entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”
As autoridades enfrentam limitações de recursos, fronteiras porosas e pontos de cruzamento ilegais, fatores que favorecem a atuação de gangues especializadas em recrutar e aliciar jovens vulneráveis.
Familiares como Musa pagaram somas elevadas, cerca de US$ 25 mil, para tentar garantir a viagem e a liberdade dos filhos, e muitas famílias perderam economias inteiras ao acreditar nas promessas de emprego no exterior.
Embora algumas vítimas tenham conseguido voltar, o estigma e o medo de retaliação dificultam que elas falem abertamente, e muitas não retomam contato com parentes, conforme mostrou a apuração.
O caso coloca em evidência a necessidade de ações coordenadas entre países da África Ocidental, maior fiscalização de recrutamentos, campanhas de prevenção e uma resposta judicial mais eficaz para reduzir o tráfico humano e proteger famílias afetadas.