Pai da Guiné luta para encontrar filhos vítimas de tráfico humano, QNET usada como fachada em esquema na África Ocidental, família pagou US$ 25 mil
Pai viajou à Serra Leoa com a polícia da Interpol, participou de batida em imóvel onde jovens eram mantidos, e denuncia rede que promete trabalho no exterior como isca para o tráfico humano
Foday Musa não vê os filhos há dois anos, ele recebeu mensagens de socorro e viajou para tentar encontrá‑los pessoalmente.
O drama inclui promessas de trabalho no exterior, pagamentos altos e jovens mantidos em condições precárias em Makeni.
A busca contou com apoio de uma unidade policial especializada e com a reportagem investigativa que acompanhou as operações, conforme informação divulgada pelo g1
A operação de resgate e o primeiro contato
A reportagem descreve que a equipe da BBC News África teve acesso exclusivo a uma unidade policial em Serra Leoa que acompanhou Musa na tentativa de localizar os filhos.
Durante a batida em Makeni, a polícia encontrou quartos com bolsas e roupas espalhadas, com cerca de 10 a 15 pessoas dormindo em cada cômodo.
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol dentro da polícia de Serra Leoa, afirmou, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.
Como funciona o golpe, segundo vítimas
O esquema usa como fachada o nome da empresa QNET, que é uma empresa legítima, mas cujo nome é aproveitado por gangues para recrutar jovens com promessas de emprego no exterior.
Vítimas relatam pagamento de taxas e exigência de recrutar outras pessoas, sob o argumento de que, só depois, viajarão para países como Estados Unidos, Canadá ou Emirados Árabes Unidos.
Na reportagem consta que “Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil).”
A jovem identificada como Aminata contou como foi coagida a se prostituir para sobreviver, dizendo, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
Resultados das batidas e relatos de vítimas
Em uma das ações, a polícia reuniu dezenas de jovens e constatou que muitos eram menores, alguns com apenas 14 anos, e a maioria proveniente da Guiné.
Dos resgatados em operações semelhantes, 19 foram levados de volta para a Guiné após triagem, segundo a reportagem.
A polícia informou ter realizado “mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas.”
Contexto de impunidade e desfecho para a família
A reportagem destaca que, apesar das detenções, poucas condenações foram registradas na região, com as autoridades enfrentando falta de recursos para investigar e julgar esses crimes.
Conforme dados citados pela matéria, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”
Musa não encontrou os filhos durante a operação e retornou à Guiné no final de setembro, enquanto a BBC confirmou que “a filha de Musa voltou para outro local da Guiné e não quis dar entrevista.”
O paradeiro do filho de Musa continua desconhecido, e o pai diz sentir profunda dor, ele afirma, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói”, e lamenta, “Meu coração está destruído”, “Não consigo parar de chorar. Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor.”
O caso expõe a combinação de promessas falsas, uso de nomes corporativos como cobertura, rotas transfronteiriças e fragilidade das investigações na África Ocidental, fatores que mantêm o tráfico humano ativo e geram sofrimento a famílias como a de Musa.