Pai da Guiné relata busca desesperada por filhos vítimas de tráfico humano ligado a falso recrutamento da QNET, operação com Interpol em Serra Leoa amplia investigações
Relato de Foday Musa e investigação em Serra Leoa mostram como gangues usam o nome QNET para atrair jovens, cobrar taxas e manter vítimas em cativeiro, segundo polícia e testemunhas
Foday Musa não vê os filhos há dois anos e viajou até Serra Leoa para tentar encontrá‑los, após mensagens de socorro e promessas de emprego que nunca se concretizaram.
Ele diz que entregou dinheiro a supostos recrutadores e participou de batidas policiais na esperança de reencontrar a filha e o filho, que teriam sido levados para um local em Makeni.
O caso mostra a atuação de gangues que se apresentam como representantes de programas de trabalho no exterior e iludem famílias inteiras, conforme informação divulgada pelo g1
Como o esquema funcionava e o papel da QNET
Segundo testemunhas e vítimas, os criminosos ofereciam vagas de emprego em países como Estados Unidos, Canadá e Emirados Árabes Unidos, e pediam pagamento antecipado para taxas administrativas.
As gangues usavam o nome da empresa QNET como fachada, cobravam valores altos e, em muitos casos, transferiam as pessoas para países vizinhos, onde as mantinham em cativeiro.
A própria QNET vem negando ligação com o tráfico e lançou campanhas locais com o slogan “QNET contra os golpes”, mas autoridades dizem que criminosos exploram o nome da empresa para dar aparência de legitimidade.
A operação de resgate em Makeni e os achados da polícia
Agentes da unidade contra o tráfico humano e a Interpol realizaram batidas em imóveis de Makeni, onde encontraram dezenas de jovens em condições precárias, com bolsas e roupas espalhadas pelo chão.
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas, afirmou, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.
Na ação em que Musa participou, a polícia identificou que na casa havia 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto e que alguns tinham apenas 14 anos.
Embora os filhos de Musa não tenham sido encontrados no local daquela batida, um jovem disse que eles haviam estado ali na semana anterior, o que seria o primeiro possível avistamento em um ano.
Depoimentos das vítimas expõem violência e exploração
Vítimas relataram promessas de cursos e viagens ao exterior, e pagamentos iniciais de até US$ 1 mil para participar do suposto programa. Muitas acabaram forçadas a recrutar outros para manter a farsa.
Uma jovem identificada como Aminata contou, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, descrevendo a degradação que enfrentou dentro do esquema.
Foday Musa diz ter recebido uma mensagem de voz de seu filho, com 76 segundos em que o jovem chora e suplica por ajuda, e declara, “É muito difícil ouvi‑lo. Escutar sua voz dói”.
Musa também disse, em relato à imprensa, “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá‑los”, evidenciando o esforço familiar para recuperar os jovens.
Contexto de impunidade e desafios das autoridades
As operações policiais em Makeni resultaram na detenção de suspeitos e no resgate de centenas de vítimas ao longo do último ano, com mais de 20 batidas relatadas pelas autoridades.
No entanto, a perseguição judicial enfrenta limitações. Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.
Após a busca, a polícia informou que a filha de Musa voltou a outro local na Guiné, mas não quis dar entrevista, e o paradeiro do filho segue desconhecido.
Para familiares como Musa, a esperança é ver a volta segura dos jovens, enquanto investigadores pedem mais recursos e cooperação regional para enfrentar o tráfico humano que, segundo delegados, atravessa fronteiras por pontos de cruzamento ilegais e usa falsas promessas de emprego para explorar pessoas vulneráveis.
O caso evidencia a necessidade de campanhas de prevenção, maior fiscalização de redes de recrutamento e apoio psicológico e jurídico às vítimas, para reduzir o alcance desses esquemas e buscar responsabilização penal dos envolvidos.