Pai da Guiné relata busca por filhos vítimas de tráfico de pessoas ligado a golpe da QNET, detidos em Serra Leoa, e operação da Interpol revela rota transfronteiriça

Promessas de emprego, pagamento de US$ 25 mil, cativeiro em Makeni e resgates com pouca punição, revelam a dimensão do tráfico de pessoas usado como fachada pela QNET

Musa, homem da Guiné, viajou a Serra Leoa em busca de dois filhos que desapareceram após serem recrutados por um esquema que prometia trabalho no exterior.

Familiares pagaram altas somas, e as vítimas foram mantidas em cativeiro em Makeni, no interior de Serra Leoa, enquanto grupos criminosos se aproveitam do nome QNET para atrair recrutas.

Os relatos, as ações da polícia e a dificuldade para punir responsáveis expõem a gravidade do tráfico de pessoas na região, conforme informação divulgada pelo G1.

Busca e operação de resgate

Em fevereiro de 2024, agentes que prometeram trabalho no exterior recrutaram o filho de 22 anos e a filha de 18 de Musa na região de Faranah, na Guiné, além de outras cinco pessoas da mesma aldeia.

O trabalho nunca se materializou, e o grupo foi levado para o outro lado da fronteira e mantido em cativeiro em Serra Leoa, sob um esquema que usa a marca da QNET como fachada.

A operação que envolveu a unidade policial e a Interpol em Serra Leoa foi documentada pelo BBC Africa Eye. Em agosto, Musa participou de uma batida em Makeni, na esperança de encontrar os filhos.

Durante a ação, a polícia encontrou quartos com roupas e bolsas espalhadas, e calculou cerca de 10 a 15 pessoas dormindo em cada aposento, muitas menores de idade.

Um jovem presente afirmou que os filhos de Musa haviam estado ali na semana anterior, o primeiro possível avistamento em um ano. Alguns detidos passaram por triagem, e 19 foram devolvidos à Guiné.

Relatos das vítimas

A história de Aminata, nome fictício de uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, ilustra como o golpe funciona na prática. Ela conta que foi apresentada a recrutadores que se diziam representantes da QNET.

Os recrutadores disseram que haveria um curso antes do voo para os Estados Unidos, e pediram o pagamento de US$ 1 mil para participar do programa, valor pago com dinheiro reservado para a faculdade da família.

Ao longo do período em que ficou retida, Aminata relata que o apoio inicial cessou e que ela teve de buscar alternativas para sobreviver.

Ela disse, textualmente, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”. Os recrutadores também exigiam que cada candidata trouxesse outros participantes para que a viagem acontecesse.

Segundo Aminata, os criminosos davam um número internacional para fazer parecer que a vítima já estava no exterior, entregavam roupas e documentos falsos, e tiravam fotos para enganar familiares sobre o suposto embarque.

Desafios da investigação e impunidade

Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, disse que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, destacando a mobilidade dos grupos criminosos.

As ações policiais são frequentes, mas o problema da responsabilização persiste. “A polícia informou ter realizado mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas.”

Além disso, a dificuldade em processar e condenar traficantes é um obstáculo sério, como mostra um dado oficial: “Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”

As autoridades locais enfrentam limitações de recursos e rotas de fuga em pontos de fronteira não fiscalizados, o que ajuda os traficantes a operar com relativa impunidade.

Consequências para as famílias

Para Musa, a angústia continua. Ele contou que “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói” ao descrever um áudio de seu filho pedindo ajuda, e afirmou, “Meu coração está destruído”, lembrando a dor de não saber onde o filho está.

A filha de Musa retornou em um momento posterior a outra região da Guiné, mas preferiu não falar com o pai, evidenciando a vergonha e o estigma sentidos por muitas vítimas.

O paradeiro do filho permanece desconhecido, e a família segue aguardando um desfecho que lhes permita encerrar o sofrimento e trazer os jovens de volta à aldeia.

O caso de Musa e os relatos de vítimas como Aminata colocam em evidência a combinação de promessas falsas, coação, documentos forjados e rotas transfronteiriças que alimentam o tráfico de pessoas na África ocidental.

Para que haja mudança, especialistas apontam para a necessidade de mais investigação, cooperação internacional e ações de prevenção que informem comunidades vulneráveis sobre golpes que usam o nome de empresas legítimas como cobertura.