quinta-feira, junho 4, 2026

Pai na Guiné busca filhos desaparecidos vítimas de tráfico humano ligado a golpe QNET, batidas em Serra Leoa e falhas na investigação e condenações

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Pai viaja à Serra Leoa e participa de operação da Interpol para tentar encontrar filhos supostamente recrutados por esquema que promete trabalho no exterior

Foday Musa não vê os filhos há dois anos, ele ouve mensagens desesperadas e viajou até Makeni para tentar encontrá-los, participando de uma batida policial que encontrou dezenas de jovens retidos em um imóvel.

Em sua aldeia na região de Faranah, na Guiné, a família pagou grandes somas na esperança de emprego no exterior, e hoje vive com a incerteza sobre o paradeiro dos filhos, e com a vergonha que muitas vítimas sentem ao voltar para casa.

O caso envolve promessas de emprego, uso do nome QNET como fachada, e ações da Interpol local, e expõe a dificuldade das autoridades em transformar prisões em condenações.

conforme informação divulgada pelo g1

O caso de Foday Musa e a operação em Makeni

Foday Musa conta que, em fevereiro de 2024, agentes que prometeram trabalho no exterior recrutaram seu filho de 22 anos e sua filha de 18, além de outras cinco pessoas, na sua aldeia, na região de Faranah.

Segundo relatos, os recrutadores eram traficantes e levaram o grupo para o outro lado da fronteira, para Serra Leoa, onde foram mantidos em cativeiro. Musa, lembrando a última mensagem do filho, diz, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói“.

Ele declarou também, “Meu coração está destruído“, e, “Não consigo parar de chorar. Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor“.

A Interpol na Guiné pediu apoio à unidade especializada em Serra Leoa, e em agosto Musa viajou a Makeni para tentar encontrar os filhos. A equipe policial realizou uma batida em um imóvel onde encontrou bolsas e roupas espalhadas, com cerca de 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto.

O chefe de investigações Mahmou Conteh afirmou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais“, e que muitos jovens encontrados eram guineanos, “A maioria é da Guiné“, “Há só um serra-leonês entre eles. Todos os demais são guineanos“.

Os filhos de Musa não foram localizados na batida, mas um jovem disse que eles haviam estado ali na semana anterior, potencialmente o último avistamento conhecido. No total, 19 deles foram levados de volta para a Guiné.

Como funciona o golpe que usa o nome QNET e como as vítimas são exploradas

Na África ocidental, gangues usam o nome da empresa QNET, criada em Hong Kong, como fachada para golpes de recrutamento. A QNET afirma ser legítima e tem campanhas locais contra fraudes, mas criminosos se passam por recrutadores.

Os traficantes prometem vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, exigem pagamentos para taxas administrativas e, depois do dinheiro, as promessas não se concretizam. Famílias chegaram a pagar valores altos para tentar garantir as viagens.

No caso da família de Musa, foi pago US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), incluindo taxas de inscrição e valores pagos para tentar libertar os filhos. Outra vítima, chamada Aminata, disse que pagou US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) para participar do programa.

Aminata relatou que, após um período de cuidado inicial, os recrutadores deixaram de prover manutenção, e ela precisou se submeter a exploração sexual para sobreviver, dizendo, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter“.

Para dar aparência de legitimidade, os traficantes forneciam documentos falsos, passaportes, fotos e até um número de telefone internacional, e exigiam que as vítimas recrutassem outras pessoas, sob a promessa de liberação para viajar.

Resgates, prisões e o contexto de impunidade

A polícia de Serra Leoa informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas. Em uma série de operações acompanhadas pela imprensa, jovens de Burkina Faso, Guiné, Mali e Costa do Marfim foram encontrados em condições precárias.

Apesar das detenções, o caminho até condenações é curto. As autoridades dizem enfrentar falta de recursos e dificuldades para processar casos transnacionais, e, conforme a reportagem, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.

A polícia também afirmou ter detido 12 supostos traficantes em operações recentes, mas a maioria dos casos não resulta em sentenças duras, o que alimenta a sensação de impunidade e permite que grupos criminosos continuem explorando pessoas vulneráveis.

Consequências para famílias e trajetórias de vítimas

Musa retornou à Guiné sem encontrar o filho, e soube depois por autoridades que os traficantes chegaram a liberar sua filha, que voltou para outro local na Guiné e não quis se encontrar com o pai, evidenciando a vergonha que muitas vítimas sentem.

Vítimas libertadas relatam dificuldades para reinserção, medo de estigma e perdas econômicas profundas, por terem gasto poupanças para pagar taxas. A experiência deixa marcas emocionais, e muitos jovens ficam sem apoio para recuperar estudos e trabalho.

Autoridades locais e organizações pedem mais cooperação regional, rastreamento das rotas de recrutamento, campanhas de prevenção e recursos para investigação, para que ações policiais pontuais se transformem em investigações que levem a julgamentos e condenações.

O caso de Musa mostra que, enquanto famílias pagam altos valores e contam com operações de resgate, a luta contra o tráfico humano ainda enfrenta barreiras legais e estruturais, e que muitas vítimas seguem sem reparação, sem retorno seguro e sem resposta definitiva sobre o paradeiro de entes queridos.

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