Países ricos devem temer a ‘Brasilização’, alerta The Economist, com juros em 15%, dívida explosiva e rigidez fiscal que podem contagiar EUA e Europa
O cenário descrito pela revista combina crescimento e independência do banco central, com uma dinâmica de dívida que pode forçar escolhas entre austeridade severa ou uma espiral de juros
A revista The Economist usou o Brasil como um alerta para o que chamou de “Brasilização” da economia global, um processo em que juros elevados tornam a dívida pública cada vez mais difícil de administrar.
No diagnóstico da publicação, o país reúne sinais contrastantes, como crescimento, um banco central independente e um orçamento primário “quase equilibrado”, ao lado de uma trajetória de endividamento que preocupa investidores.
O conjunto de análises e dados sobre juros, dívida e rigidez fiscal foi compilado a partir da cobertura do g1, que repercutiu o artigo da The Economist, conforme informação divulgada pelo g1
Por que o Brasil virou exemplo
A Economist destaca que a Selic em 15% ao ano pressiona as contas públicas de forma estrutural. Segundo o texto, com essa taxa, o governo brasileiro, “provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano apenas para pagar a conta de juros”, mesmo com as contas primárias próximas do equilíbrio.
A revista também aponta que “Sua dívida líquida, em 66% do PIB, é alta para os padrões de mercados emergentes, mas baixa para os do mundo rico.” Esses números colocam o Brasil num limiar perigoso, em que custos de financiamento elevados corroem espaço fiscal.
Os números que preocupam
O Fundo Monetário Internacional estima que a “dívida pública bruta do Brasil vai atingir 99% do PIB em 2030. Em 2010, correspondia a 62%.” Esse avanço recente na relação dívida/PIB é um dos elementos que fundamentam o alerta da revista.
Além da dívida, a Economist chama atenção para a rigidez do gasto público, com cerca de 10% do PIB comprometido com aposentadorias, e para proteções constitucionais que blindam benefícios e dificultam ajustes.
Riscos para países ricos
Para a publicação, o Brasil funciona como um “alerta antecipado” do que pode acontecer em economias avançadas, onde o envelhecimento e os custos com saúde já pressionam orçamentos.
A revista observa sinais iniciais de similaridade nos Estados Unidos, citando instituições sob pressão e uma inflação mais difícil de controlar após a pandemia. No texto, a publicação afirma que o presidente Donald Trump “politizou o Departamento de Justiça”, deseja controlar o Federal Reserve e “cogita federalizar as eleições”, fatores que minam confiança institucional.
Caminhos e encruzilhadas políticas
A Economist coloca que o Brasil enfrenta uma escolha dolorosa, entre “uma austeridade profunda e uma espiral aterradora de juros e dívida.” A saída pela austeridade, diz a revista, parece politicamente inviável num contexto em que o governo afrouxou controles e enfrenta pressão social.
O editorial também critica estruturas internas, falando em instituições “frágeis” que chegaram a “vacilar” durante a tentativa de golpe de 2022, e aponta para a necessidade de reformas tributárias e previdenciárias para recuperar credibilidade e crescimento.
Em síntese, a análise sugere que, sem mudanças estruturais para conter juros e ajustar contas, o Brasil pode seguir preso a um modelo fiscal insustentável, e economias ricas devem observar esse caso como um aviso sobre os riscos da combinação entre juros altos, dívida crescente e fragilidade institucional.