Parlamento Europeu suspende acordo comercial com os EUA após ameaças de Trump sobre a Groenlândia, Bernd Lange fala em ‘quebra do acordo’ e risco de impasse

Parlamento Europeu decide suspender a análise do acordo UE-EUA, em reação às declarações de Donald Trump sobre a Groenlândia e ao uso de tarifas como instrumento de pressão política

A suspensão interrompeu o avanço das posições do Parlamento sobre duas propostas legislativas ligadas ao Acordo de Turnberry, que visavam abrir negociações formais com o Conselho Europeu.

A decisão foi anunciada por Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, que afirmou haver uma “quebra do acordo” após as declarações do presidente americano.

O anúncio ocorre em um contexto de ameaças tarifárias e de reforço da segurança no Ártico, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que a análise foi suspensa

Segundo Bernd Lange, o Parlamento vinha definindo uma posição sobre duas propostas para iniciar negociações, mas o processo foi interrompido depois que Donald Trump reforçou a intenção de que os EUA assumam o controle da Groenlândia.

Lange disse que, ao ouvir o discurso de Trump em Davos, “não houve qualquer recuo de posição” e que o presidente dos EUA quer negociar a compra da ilha, tendo apenas prometido não usar força militar, o que levou à avaliação de que “inaugura um novo tipo de relação”.

Por enquanto, “não há possibilidade de compromisso”, afirmou o presidente da Comissão de Comércio Internacional, em referência direta às ameaças que colocam em risco o acordo comercial.

O que previa o Acordo de Turnberry

O Acordo de Turnberry previa, entre outros pontos, a suspensão de tarifas sobre todos os produtos industriais dos EUA exportados para a UE e a criação de um sistema de cotas tarifárias para diversos produtos agroalimentares americanos.

Esse mecanismo permitiria a entrada de determinados volumes desses itens no mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas, e o tratado político acordado também falava na aplicação de tarifas de 15% pelos EUA sobre a maior parte dos produtos europeus, com contrapartidas da União Europeia.

Reações na Europa e ameaça de retaliação

O governo francês e o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, classificaram a estratégia americana de usar tarifas como forma de pressão política como uma “chantagem” e apoiaram a suspensão do processo parlamentar.

Com a paralisação, a União Europeia voltou a considerar a adoção de tarifas retaliatórias, que poderiam alcançar 93 bilhões de euros, além da possibilidade de limitar o acesso de empresas americanas ao mercado europeu.

No Fórum Econômico Mundial, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a soberania da Groenlândia não está em negociação e alertou para o erro estratégico de escalar pressões tarifárias para ambos os lados.

Groenlândia, segurança e reação popular

A Groenlândia, território semiautônomo ligado à Dinamarca, ganhou destaque por ser estratégica para rotas marítimas e por reservas de matérias-primas críticas, além de interesse geopolítico ligado a planos de defesa citados pelos EUA.

Trump chegou a anunciar que pretende impor uma tarifa de 10% sobre produtos europeus a partir de fevereiro caso a Groenlândia não passe ao controle americano até junho, declaração que intensificou a resposta europeia e o envio de pequenos contingentes militares à ilha.

Protestos na Groenlândia e em Copenhague reuniram milhares de pessoas contrárias à ideia de venda ou anexação, e governos europeus reafirmaram compromisso com a defesa do território no âmbito da Otan.

O caso segue como ponto de tensão entre Bruxelas e Washington, com impacto direto nas negociações comerciais e em possíveis medidas econômicas de retaliação, enquanto o Parlamento mantém a análise suspensa até nova clareza sobre as intenções americanas.