Parlamento Europeu suspende acordo UE-EUA após novas ameaças de Trump sobre Groenlândia, com risco de tarifa de 10% e retaliações de até 93 bilhões de euros

Parlamento Europeu suspende acordo UE-EUA e interrompe análise do Acordo de Turnberry, enquanto líderes europeus denunciam chantagem tarifária e pedem claridade sobre a Groenlândia

O Parlamento Europeu decidiu suspender a análise do acordo comercial com os Estados Unidos, em reação a declarações do presidente americano sobre a Groenlândia, conforme informou o g1.

A medida foi anunciada por Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, que afirmou que o processo foi interrompido diante do que classificou como uma quebra do acordo e do uso de tarifas como instrumento de coerção.

O anúncio interrompe a tramitação de propostas relacionadas ao Acordo de Turnberry e deixa em suspenso a possibilidade de iniciar negociações formais com o Conselho Europeu, até que haja clareza sobre as ameaças ligadas à Groenlândia, conforme informação divulgada pelo g1

Por que o acordo foi suspenso

Segundo Lange, o Parlamento vinha avançando na definição de sua posição sobre duas propostas legislativas de Turnberry, com o objetivo de viabilizar os compromissos previstos entre UE e EUA. No entanto, o processo foi freado após repetidas declarações de Donald Trump defendendo que os EUA assumam o controle da Groenlândia.

O comunicado do Parlamento menciona ainda que Trump anunciou a intenção de impor uma tarifa de 10% sobre produtos europeus a partir de fevereiro, caso a Groenlândia não passe ao controle americano até junho, o que foi citado como exemplo de pressão direta sobre a União Europeia.

Lange disse, em referência ao discurso de Trump em Davos, “Ao ouvir o discurso dele [Trump] em Davos, não houve qualquer recuo de posição. Ele quer que a Groenlândia faça parte dos EUA, quer sentar à mesa para discutir um preço. O único compromisso assumido foi o de não usar força militar sobre a Groenlândia.”

O que previa o Acordo de Turnberry

O Acordo de Turnberry, segundo a descrição feita nas negociações, previa a suspensão de tarifas sobre todos os produtos industriais dos EUA exportados para a União Europeia, e a criação de um sistema de cotas tarifárias para diversos produtos agroalimentares americanos.

Esse mecanismo permitiria a entrada de determinados volumes desses itens no mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas. Apesar do acerto político, o tratado ainda dependia de aval formal do Parlamento Europeu e dos governos nacionais, com início de vigência previsto entre março e abril.

Reações na Europa e acusações de chantagem

Países e lideranças europeias reagiram com preocupação. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, afirmou que Washington tem recorrido a ameaças tarifárias como forma de pressão política, classificando a estratégia como uma tentativa de impor concessões injustificáveis.

Para Barrot, o uso de tarifas nesse contexto caracteriza um movimento de chantagem, e ele declarou apoio à suspensão do acordo por parte do Parlamento. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a soberania da Groenlândia não está em negociação e alertou que a escalada de pressões tarifárias representa um erro estratégico para ambos os lados.

Lange também avaliou que, com esse tipo de pressão, Trump “inaugura um novo tipo de relação”, ao passar a usar tarifas como instrumento de coerção, e que diante dessa pressão “não há possibilidade de compromisso” enquanto o cenário persistir.

Impacto econômico e próximos passos

Com a suspensão do processo, a União Europeia voltou a considerar a adoção de tarifas retaliatórias, que poderão alcançar 93 bilhões de euros, além da possibilidade de limitar o acesso de empresas americanas ao mercado europeu.

Fontes citadas pela reportagem apontam que a Comissão Europeia dispõe de mecanismos robustos para reagir a eventuais medidas adotadas pelo governo americano, e que governos nacionais terão papel nas decisões sobre eventuais retaliações e em futuras negociações.

Enquanto isso, a crise provocou também movimentações de segurança, com países europeus anunciando reforço na presença militar na região do Ártico, e com protestos públicos na Groenlândia e em Copenhague contra a intenção declarada pelos EUA de adquirir a ilha.

As próximas semanas devem ser decisivas para definir se a suspensão do acordo entre UE e EUA se manterá, e qual será o formato das respostas europeias às ameaças tarifárias e à pressão geopolítica sobre a Groenlândia.