Parlamento Europeu suspende análise do acordo comercial UE-EUA após ameaças de Trump de comprar Groenlândia e impor tarifa de 10%, diz Bernd Lange
Decisão paralisa negociações previstas no Acordo de Turnberry e suspende duas propostas legislativas até haver clareza sobre a pressão americana sobre a Groenlândia
O Parlamento Europeu anunciou a suspensão da análise do acordo comercial UE-EUA, em resposta a declarações do presidente dos Estados Unidos sobre a Groenlândia.
A medida foi comunicada por Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, que afirmou que o processo será mantido em pausa até surgirem sinais claros sobre a situação da ilha.
Os acontecimentos intensificaram o atrito entre Bruxelas e Washington e colocaram em xeque as negociações comerciais entre a União Europeia e os Estados Unidos, conforme informação divulgada pelo g1
Por que o Parlamento suspendeu a análise
Segundo Bernd Lange, o Parlamento vinha avançando na definição de sua posição sobre duas propostas legislativas de Turnberry, com o objetivo de iniciar negociações com o Conselho Europeu e viabilizar os compromissos previstos no acordo comercial UE-EUA.
Esse avanço foi interrompido após o que Lange classificou como uma quebra do acordo por parte dos EUA, depois de declarações repetidas do presidente Donald Trump defendendo que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia.
Lange afirmou ainda, citando o discurso de Trump em Davos, “Ao ouvir o discurso dele [Trump] em Davos, não houve qualquer recuo de posição. Ele quer que a Groenlândia faça parte dos EUA, quer sentar à mesa para discutir um preço. O único compromisso assumido foi o de não usar força militar sobre a Groenlândia.”
O deputado ressaltou que, na avaliação do Parlamento, Trump passou a usar tarifas como instrumento de coerção e que isso inaugura um novo tipo de relação, o que impede qualquer avanço enquanto a situação permanecer incerta.
O que previa o Acordo de Turnberry
O Acordo de Turnberry, conforme descrito nas tratativas, previa a suspensão de tarifas sobre todos os produtos industriais dos EUA exportados para a UE, além da criação de um sistema de cotas tarifárias para diversos produtos agroalimentares americanos.
Esse mecanismo permitia a entrada de determinados volumes desses itens no mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas, e era a base para a retomada das negociações comerciais entre as duas economias.
Ameaças de tarifas e justificativa americana
Em comunicado e em postagens, Trump afirmou que pretende usar pressão econômica caso a Groenlândia não passe ao controle americano. Conforme a cobertura, “Trump anunciou que pretende impor uma tarifa de 10% sobre produtos europeus a partir de fevereiro caso a Groenlândia não passe ao controle americano até junho.”
O presidente americano também justificou o interesse estratégico pela ilha, ao dizer, nas redes sociais, que “Os Estados Unidos precisam da Groenlândia para fins de segurança nacional. Ela é vital para o Domo de Ouro que estamos construindo. A Otan deveria liderar o processo para que a conquistemos. Se não o fizermos, a Rússia ou a China o farão, e isso não vai acontecer!”
Reações europeias e próximos passos
A crise provocou respostas políticas e militares na Europa. Países como Dinamarca, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda anunciaram fortalecimento da segurança no Ártico e envio de contingentes a pedido da Dinamarca, em demonstração de apoio à Groenlândia.
O governo da Groenlândia agradeceu publicamente o apoio europeu, enquanto protestos populares nas ruas da ilha e em Copenhague expressaram rejeição à ideia de venda ou anexação por parte dos EUA.
Bernd Lange deixou claro que “Vamos manter o andamento de dois processos suspenso até que haja clareza sobre a Groenlândia e sobre essas ameaças”, acrescentou o presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, e, segundo ele, enquanto esse cenário persistir, “não há possibilidade de compromisso”.
Na prática, a suspensão adia decisões que poderiam facilitar a entrada de produtos industriais e agroalimentares americanos na UE, e pode forçar a Comissão Europeia e o Conselho a reavaliar a postura sobre a aplicação provisória de qualquer tratado, caso a situação política não se estabilize.
A tensão entre o Parlamento Europeu e a administração americana eleva o risco de retaliações comerciais e complica a retomada de um diálogo estável sobre o acordo comercial UE-EUA nos próximos meses.