PDVSA pressionada pela ofensiva dos EUA, Trump fala em ‘assumir’ o petróleo venezuelano, Chevron e Exxon podem liderar abertura, e o impacto no mercado global

Plano de Trump de ‘assumir’ o setor coloca a PDVSA em xeque, abre caminho para investimentos de petrolíferas americanas, e acirra disputa entre EUA, China e Rússia pelo petróleo

A ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela reacendeu o debate sobre o futuro da PDVSA e do destino das maiores reservas de petróleo do planeta.

Em entrevistas e declarações públicas, o presidente Donald Trump afirmou a intenção de “assumir” o setor petrolífero venezuelano e permitir que grandes empresas americanas recuperem a infraestrutura, gerando investimentos bilionários.

As consequências, tanto para a estatal quanto para o mercado global, dependem de um processo longo de reconstrução, mudança de regras e decisões geopolíticas, conforme informação divulgada pelo g1.

O estado atual da PDVSA

A PDVSA segue operando apesar da ofensiva, com produção e refino funcionando, embora alguns pontos, como o porto de La Guaira, tenham sido afetados, segundo apuração da Reuters citada pelo g1.

O principal problema da estatal é estrutural, e não apenas operacional de curto prazo. “A PDVSA acabou sendo desmontada por falta de investimento. Hoje, exporta apenas um terço do volume registrado há 20 anos. É uma empresa sucateada por má administração, mas que ainda tem enorme potencial, porque detém grandes reservas”, disse Welber Barral, sócio da BMJ Consultores Associados.

O país concentra cerca de 17% das reservas comprovadas do mundo, mais de 300 bilhões de barris segundo entidades do setor, e o petróleo representa cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela, o que torna a estatal central para as contas públicas.

O que Trump propõe e o papel das petrolíferas americanas

Trump declarou que os EUA pretendem reestruturar a indústria, permitindo que empresas como Chevron e Exxon invistam na recuperação da infraestrutura. Em coletiva, ele afirmou, “Nossas gigantescas companhias petrolíferas vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura e começar a gerar lucro para o país”.

Analistas do UBS BB apontam que a proposta envolve administrar a Venezuela durante uma transição, com produção liderada por empresas americanas, sem necessariamente estatizar novamente o setor.

O mercado reagiu à expectativa de abertura, com ações de petrolíferas dos EUA subindo inicialmente, destaque para a Chevron, que tinha alta de 5,13% em uma sessão, refletindo a leitura dos investidores sobre quem se beneficiaria dessa abertura.

Impactos no mercado e prazos para recuperação

Especialistas consultados pelo g1 ressaltam que qualquer aumento relevante da oferta venezuelana será gradual. A produção do país está estabilizada em torno de 1 milhão de barris por dia, bem abaixo do potencial histórico.

“Não há possibilidade de aumento rápido. Um retorno ao patamar de 3 milhões de barris por dia não ocorreria em menos de cinco anos”, avaliou Helder Queiroz, professor do Instituto de Economia da UFRJ e ex-diretor da ANP.

Para recuperar volumes substanciais seriam necessários investimentos maciços, reconstrução de refinarias, oleodutos e mudanças profundas na governança da PDVSA, o que sugere impacto limitado e lento nos preços internacionais no curto prazo.

Redesenho geopolítico, China e concorrência regional

Além do componente comercial, a movimentação americana tem forte dimensão estratégica. A China é hoje o principal destino do petróleo venezuelano, comprando cerca de 430 mil barris por dia, e sendo credora em torno de US$ 12 bilhões com garantias em petróleo.

Analistas entendem que Washington busca reduzir a influência de Pequim e de Moscou na Venezuela, ao mesmo tempo em que tenta atrair investimentos privados norte-americanos, em um jogo que pode levar outros países da região a reavaliar dependências e alinhamentos.

Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras, afirma que o mais provável é um novo arranjo em que a estatal opere em parceria com empresas internacionais. “O cenário mais provável é a construção de um novo arranjo de regras, no qual a estatal passe a operar em parceria com empresas internacionais. Isso não representa um enfraquecimento. Pelo contrário, pode significar um fortalecimento, já que o isolamento e o monopólio tendem a fragilizar as empresas”, disse Chaves.

Por ora, o mercado interpreta os eventos como uma mudança geopolítica potencial, mais do que como uma alteração imediata da oferta global, e aguarda definições sobre o futuro político e regulatório da Venezuela.