O plano dos EUA para ‘assumir’ o setor petrolífero venezuelano, o interesse de empresas como Chevron e Exxon, e como a PDVSA pode mudar seu modelo de operação
A ofensiva americana que culminou com a retirada de Nicolás Maduro do poder colocou no centro do debate o futuro da PDVSA, a petrolífera estatal que concentra grande parte das reservas da Venezuela.
O presidente Donald Trump afirmou que os EUA pretendem reestruturar a indústria, abrindo o setor a grandes empresas americanas para recuperar infraestrutura e levar o petróleo venezuelano de volta ao mercado internacional.
A discussão sobre efeitos econômicos, comerciais e geopolíticos está em curso, e muitas das informações iniciais foram compiladas conforme informação divulgada pelo g1.
Situação atual da PDVSA
Apesar da ofensiva militar, a estatal segue operando, segundo informações da Reuters, com produção e refino funcionando normalmente, e sem danos às principais instalações, embora o porto de La Guaira tenha sido severamente afetado pelos ataques.
O problema central da PDVSA é estrutural, e não apenas operacional de curto prazo. Como observa Welber Barral, sócio da BMJ Consultores Associados, “A PDVSA acabou sendo desmontada por falta de investimento. Hoje, exporta apenas um terço do volume registrado há 20 anos. É uma empresa sucateada por má administração, mas que ainda tem enorme potencial, porque detém grandes reservas”, diz.
A companhia administra as maiores reservas comprovadas do planeta, perto de 17% do total mundial, mais de 300 bilhões de barris segundo dados do setor, e o petróleo responde por cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela, o que mantém a empresa no centro das contas públicas.
O que Trump pretende e o papel das petrolíferas americanas
Em coletiva, Trump afirmou que os EUA irão “consertar” a indústria venezuelana, com a entrada de “nossas gigantescas companhias petrolíferas”, para “gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura e começar a gerar lucro para o país”, frase citada por analistas e pela imprensa.
Analistas do UBS BB apontam que a proposta é que os EUA “administrem” a Venezuela durante uma transição, com produção liderada por empresas americanas, em um modelo que prioriza o capital privado e não a estatização do setor.
Especialistas lembram que a Chevron já manteve operações no país e foi vista como beneficiária imediata após declarações de Trump, quando as ações da companhia subiram, segundo o g1, cerca de 5,13% em um dos primeiros dias de reação do mercado.
Para que companhias americanas voltem a investir de forma significativa, será preciso oferecer segurança jurídica e acordos operacionais com a PDVSA, via cessão de blocos ou parcerias, conforme avaliação de Welber Barral.
Impacto no mercado de petróleo
Especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que os desdobramentos tendem a ter impacto limitado nos preços em prazo curto, porque a produção venezuelana está em torno de 1 milhão de barris por dia, muito abaixo do potencial histórico do país.
Para que a oferta aumente de forma relevante, será necessário um processo longo de investimentos, reconstrução de refinarias e mudanças na governança da PDVSA. Helder Queiroz, professor do IE/UFRJ, afirma, “Não há possibilidade de aumento rápido. Um retorno ao patamar de 3 milhões de barris por dia não ocorreria em menos de cinco anos”.
Além disso, o mercado global já opera sob expectativa de excesso de oferta e demanda mais fraca em 2026, o que reduz a probabilidade de mudança rápida nos preços internacionais.
Geopolítica, China e o redesenho do tabuleiro
A atuação dos EUA também tem forte componente geoestratégico. A China é hoje o principal destino do petróleo venezuelano, importando cerca de 430 mil barris por dia, e figura como credora de aproximadamente US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos por petróleo, segundo especialistas citados pelo g1.
Ao buscar reduzir a influência de Pequim e Moscou na Venezuela, Washington tenta reposicionar o país em seu campo de influência, mas, como observa Welber Barral, ainda não existe uma estratégia americana claramente definida para o que fazer com a Venezuela após a queda de Maduro.
Para analistas, a reação inicial dos mercados foi mais simbólica do que prática, refletindo a leitura de um novo cenário geopolítico, e aguardando definições sobre regras, contratos e garantias que permitam investimentos de longo prazo na recuperação da PDVSA e da produção venezuelana.