Pé de galinha virou negócio da China, exportações e indústria pet transformaram resto de açougue em iguaria valorizada e geraram novo mercado para o Brasil

Como a abertura do mercado chinês, a demanda da África do Sul e a indústria pet elevaram o valor do pé de galinha no Brasil, mudando seu papel econômico e culinário

O pé de galinha deixou de ser sobra de açougue e frigorífico e virou item procurado por mercados internacionais e pela indústria pet, com impacto direto no preço e na cadeia do frango.

Na China, o produto é consumido como snack embalado e temperado, em lojas e máquinas automáticas, enquanto na África do Sul ele integra pratos tradicionais como o walkie-talkie, feito com cabeça e pé de frango.

Essa transformação é reflexo de mudanças comerciais e de mercado observadas ao longo das últimas duas décadas, conforme informação divulgada pelo g1.

Exportações e números que explicam a valorização

Só no ano passado, a indústria nacional faturou US$ 221 milhões com a venda do pé de galinha para a China, principal comprador do miúdo, segundo o Ministério da Agricultura. O valor representou um aumento de 9,5% em relação às vendas de 2024. A autorização chinesa para que o Brasil exporte carne de frango, concedida em 2009, foi o ponto de partida dessa transformação.

Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, afirma, “A China é o mercado que melhor remunera o pé de galinha, pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada”, e observa que a África do Sul, segundo maior comprador, paga em média US$ 2 mil pela tonelada.

Apesar de importar menos que a China, a África do Sul mais que quadruplicou as compras em 2025, atingindo US$ 49 milhões em aquisições do produto brasileiro.

Preço doméstico e efeito da demanda

No atacado, o pé de galinha teve preço médio de R$ 5,75 no estado em 2026, valor que, segundo o analista Fernando Iglesias, do Safras & Mercado, é 41,3% mais alto que a média registrada em 2020, início da série histórica analisada.

Esse aumento no preço interno decorre tanto da valorização internacional quanto da maior demanda da indústria pet, que utiliza o produto para produzir farinhas e ração animal.

Como resume Santin, “O pé de galinha que não é exportado, é destinado principalmente à indústria pet”, o que amplia os canais de saída do miúdo e reduz a oferta local disponível a preços muito baixos.

Consumo e usos culinários na China e na África do Sul

Na China, o pé de galinha é consumido como snack para “enganar a fome” e “passar o tempo”, podendo ser encontrado embalado e temperado em lojas de rua e máquinas automáticas em estações e shoppings.

A chef Jiang Pu lembra, “Eu acho engraçado que quando os meus pais vieram para o Brasil, em 1998, o pé de galinha era dado de graça no açougue. Tinha muita sobra, minha mãe pegava um monte”, mostrando a mudança de status do produto em poucas décadas.

Na África do Sul, o pé é preparado de forma ensopada, como nos walkie-talkies, e servido com pap, uma polenta de milho, em receitas que nasceram da criatividade culinária frente às desigualdades de acesso a cortes nobres.

Impactos para produtores e consumidores

Para frigoríficos e atacadistas, o pé de galinha deixou de ser um resíduo e passou a gerar receita relevante, com mercados que pagam melhor pelo produto e estabilizam vendas externas.

Para o consumidor brasileiro, a oferta local pode variar entre preços de varejo mais altos, como quando o produto chegou a R$ 14 por quilo em São Paulo, e preços de atacado mais baixos, dependendo do fluxo de exportação.

Especialistas e representantes do setor destacam que a união entre demanda internacional e uso industrial interno mudou a logística e o valor do miúdo, transformando o pé de galinha em um item estratégico para a cadeia do frango no Brasil.