Petróleo venezuelano desembarca em massa nos EUA, refinarias da Costa do Golfo têm excesso de oferta e lutam para absorver volumes após acordo de US$ 2 bilhões

Com o acordo de US$ 2 bilhões, embarques de petróleo venezuelano subiram, e a demanda fraca nas refinarias da Costa do Golfo deixa volumes sem comprador, pressionando os preços

As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos estão tendo dificuldades para absorver o rápido aumento dos embarques de petróleo venezuelano, após o acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões entre Caracas e Washington.

O excesso de oferta tem pressionado os preços e deixado parte dos volumes sem comprador, enquanto operadores e dados de embarque relatam atrasos e estoques em terminais do Caribe.

Essa dinâmica surge como obstáculo aos planos do presidente Donald Trump de direcionar a maior parte do petróleo venezuelano ao mercado americano, conforme informação divulgada pelo g1.

Aumento de embarques e números que explicam a pressão

Em janeiro, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.

Antes das sanções de 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários da Venezuela, e esse volume caiu a zero em meados de 2025, depois que o presidente Trump revogou licenças de comercialização e transporte.

No mês passado, as exportações totais da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia, ante 498 mil em dezembro, aumentando substancialmente a oferta disponível para o mercado internacional.

Preço, descontos e relutância das refinarias

Operadores no mercado afirmam que parte do problema é a relutância das refinarias americanas em processar os graus mais pesados do petróleo venezuelano, que exigem ajustes nas unidades de refino.

Atualmente, cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.

Um operador resumiu a situação, dizendo, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, indicando como o excesso de oferta está forçando traders e vendedores a buscar alternativas.

Quem aumenta os embarques e capacidade das refinarias

Após a operação em Caracas que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, as tradings Vitol e Trafigura receberam licenças do governo dos EUA para negociar e vender milhões de barris venezuelanos, juntando-se à Chevron, que já tinha autorização.

A Chevron elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro. A empresa diz que sua rede de refino consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que indica a necessidade de armazenar ou revender o excedente.

O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos.

Vitol e Trafigura, juntas, exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, dos portos venezuelanos em janeiro, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe, mas grande parte desse volume ainda não foi vendida.

Alternativas para escoar o excesso e o papel da China e da Índia

A China, que era o principal destino do petróleo venezuelano, deixou de receber cargas desde a captura de Maduro no início de janeiro, enquanto autoridades americanas afirmaram que os EUA passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado.

Embora Pequim ainda tenha permissão para comprar, fontes disseram que isso não deve ocorrer a preços considerados abaixo do valor de mercado, e a estatal PetroChina orientou comerciantes a suspender novas negociações enquanto avalia o cenário.

Uma alternativa em discussão é a Índia, onde o acordo comercial anunciado entre os EUA e Nova Délhi prevê menor compra de petróleo russo e aumento de aquisição de petróleo americano, com possibilidade de compra de volumes venezuelanos. A indiana Reliance Industries informou que estuda importar petróleo da Venezuela.

Riscos e próximos passos

Fontes do setor afirmam que levará tempo até que as refinarias americanas consigam operar novamente em capacidade máxima com o petróleo venezuelano, porque algumas instalações precisam de ajustes para processar graus mais pesados.

Dados de monitoramento de navios mostraram petroleiros fretados pela Chevron carregados com petróleo venezuelano aguardando dias para descarregar em portos dos EUA, ou reduzindo a velocidade de navegação para reagendar entregas.

Com o aumento rápido dos embarques, traders, refinarias e autoridades ainda procuram soluções para evitar acumulação excessiva de estoques, ajustar preços e encontrar destinos alternativos para o petróleo venezuelano no curto prazo.