Excesso de embarques após acordo de US$ 2 bilhões com Caracas triplicou vendas para os EUA, mas demanda fraca, ajustes de unidades e descontos ainda limitam a absorção dos volumes
A entrada rápida de cargas de petróleo venezuelano tem sobrecarregado refinarias na Costa do Golfo dos Estados Unidos, gerando estoques e pressão sobre os preços.
O aumento dos embarques foi impulsionado por um acordo comercial fechado com Caracas e pela liberação de licenças para tradings e empresas americanas atuarem no mercado venezuelano.
Dados de mercado e operadores apontam para descontos maiores, cargas sem comprador e limitação operacional das refinarias, conforme informação divulgada pelo g1.
Exportações e os números mais recentes
As exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos, segundo dados baseados no movimento de navios, quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia.
No total, as exportações da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, enquanto a China, principal destino anterior, deixou de receber cargas após a captura de Nicolás Maduro, segundo relatos.
Antes das sanções de Washington, os EUA importavam cerca de 500 mil barris diários da Venezuela, volume que caiu a zero em meados de 2025, de acordo com os dados citados.
Dificuldades das refinarias americanas
Refinarias da Costa do Golfo enfrentam dificuldade para processar o aumento simultâneo das exportações, em parte porque algumas unidades exigem ajustes para tratar graus mais pesados do produto.
Um operador resumiu a situação, dizendo, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes“, o que ilustra a relutância de alguns refinadores em comprar o petróleo venezuelano.
Empresas também reclamam que, apesar da queda dos preços, o produto ainda fica caro frente aos graus pesados canadenses concorrentes, comprometendo a competitividade.
Vendedores, capacidade e armazenamento
A Chevron elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, segundo os dados mencionados pela reportagem.
O CEO da Chevron afirmou que a rede de refino da companhia consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela, o que implica necessidade de armazenar ou revender o excedente quando as vendas superam essa capacidade.
O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, disse que a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos. Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris em janeiro, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, em grande parte direcionados a terminais no Caribe, e grande parte desse volume ainda não foi vendida.
Preços, concorrência e alternativas de mercado
Os descontos sobre o Brent se ampliaram para tornar o produto atraente, com cargas de petróleo pesado venezuelano sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.
Com a China reassessando compras e a PetroChina orientando comerciantes a suspender novas negociações, outras rotas de escoamento ganham atenção. A Índia surge como alternativa, e a Reliance Industries informou que estuda importar petróleo da Venezuela.
Autoridades americanas indicaram que os EUA passariam a controlar as vendas venezuelanas por tempo indeterminado após a operação em Caracas, e isso complicou negociações e destinos tradicionais, segundo as informações apuradas.
O que esperar a seguir
Levará tempo até que as refinarias americanas ajustem capacidade e preferências de compra para absorver o aumento de oferta do petróleo venezuelano, e operadores dizem que parte dos volumes pode permanecer em armazenamento ou ser redirecionada a outros mercados.
Enquanto isso, preços mais competitivos e autorizações para ampliar operações serão determinantes para reduzir estoques e tornar viável o fluxo maior de vendas para os Estados Unidos.
Reportagem com base em dados e declarações de operadoras, empresas e monitoramento de navios, conforme informação divulgada pelo g1.