Petróleo venezuelano pressiona refinarias dos EUA na Costa do Golfo após acordo de US$ 2 bilhões, Chevron, Vitol e Trafigura lidam com excesso e queda de preços

Aumento rápido das exportações deixa volumes sem comprador, descontos maiores, e refinarias nos EUA precisam adaptar unidades para processar o petróleo venezuelano pesado

As refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos estão tendo dificuldade em absorver o crescimento súbito nas cargas de petróleo venezuelano, depois do acordo de fornecimento de US$ 2 bilhões firmado entre Caracas e Washington, segundo operadores do mercado.

O excesso de oferta tem pressionado os preços e deixado parte dos volumes sem comprador, com descontos maiores e estoques temporários em terminais do Caribe, dizem fontes do setor.

Os números e declarações sobre o cenário foram compilados a partir das informações divulgadas pelo g1, com base em dados de embarque e entrevistas com operadores do mercado, conforme informação divulgada pelo g1.

Excesso de oferta e impacto nos preços

O aumento simultâneo das exportações colocou mais petróleo venezuelano à venda do que há compradores, especialmente na Costa do Golfo, segundo operadores. “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes”, disse um dos operadores.

Atualmente, cargas do petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.

No mês passado, as exportações totais de petróleo venezuelano para os Estados Unidos quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.

Capacidade das refinarias e necessidade de ajustes

Antes das sanções de 2019, os EUA importavam cerca de 500 mil barris por dia da Venezuela, volume que caiu a zero em meados de 2025, após revogação de licenças, aponta o levantamento.

Operadores alertam que levará tempo até que as refinarias americanas voltem a operar em capacidade máxima com o petróleo venezuelano, porque algumas instalações precisam de ajustes para processar graus mais pesados.

O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que a empresa “pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos”.

A Chevron, cuja licença permite exportar petróleo venezuelano apenas para os Estados Unidos, elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro. Mike Wirth afirmou que “a rede de refino da Chevron consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela”, o que indica necessidade de armazenar ou revender o excedente.

Quem está vendendo e para onde vai o petróleo

Após a operação em Caracas que resultou na captura de Nicolás Maduro, as tradings Vitol e Trafigura receberam licenças dos EUA para negociar e vender milhões de barris venezuelanos, juntando-se à Chevron, que já tinha autorização.

Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia, dos portos venezuelanos em janeiro, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe, e grande parte desse volume ainda não foi vendida, segundo fontes.

No total, as exportações de petróleo da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, mostram os dados citados.

Concorrência internacional e destinos alternativos

A China, que era o principal destino, deixou de receber cargas desde o início de janeiro, e autoridades americanas afirmaram que os EUA passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado. Pequim rejeitou esse controle e a PetroChina orientou comerciantes a suspenderem novas negociações.

Uma alternativa para escoar o petróleo venezuelano pode ser a Índia, depois do acordo anunciado pelo presidente Trump que prevê redução de tarifas em troca de menor compra de petróleo russo e maior aquisição de petróleo americano, e possivelmente venezuelano.

Fontes do setor e dados de embarque mostram navios fretados pela Chevron aguardando dias para descarregar em portos dos EUA ou reduzindo velocidade, e operadores afirmam que atrasos exigiram renegociação de datas de descarga, mas garantem que muitas cargas foram vendidas antes da partida.

As perspectivas dependem de ajustes nas refinarias, competitividade de preços e decisões de compradores globais, enquanto o mercado acompanha o ritmo das novas autorizações e a capacidade de converter o excesso de oferta em vendas efetivas.