Investigamos o post que descreve um ciclo de substituição por agentes de IA, com “PIB fantasma”, desemprego de 10,2% e queda de 40% no S&P, e como isso mexeu com investidores
A postagem da Citrini Research viralizou no fim de semana e foi apontada por analistas como um dos gatilhos das quedas em ações de tecnologia na segunda-feira.
O texto, escrito como se fosse um relatório de 30 de junho de 2028, desenha um cenário de desemprego em massa entre trabalhadores de colarinho branco e de produtividade alta, mas com renda em queda.
Os dados e reações ao documento foram amplamente repercutidos pelo mercado e pela imprensa, conforme informação divulgada pelo g1.
O que diz o texto que viralizou
O post da Citrini Research, canal fundado pelo investidor James van Gleek no Substack, é apresentado pelos autores como um “exercício mental” e afirma que “O único objetivo deste texto é modelar um cenário que tem sido relativamente pouco explorado”. No formato de um relatório futuro, os autores descrevem um mundo com desemprego de 10,2% e queda de quase 40% no índice S&P.
Segundo o relatório fictício, a IA aumentaria radicalmente a produtividade, por meio de avanços como o chamado “agentic coding”, em que agentes autônomos escrevem e testam código com intervenção humana mínima, e isso levaria à substituição de profissionais de escritório, gerando uma espiral de demissões e retração do consumo.
Os autores introduzem o conceito de “PIB fantasma”, explicando que houve “produção que aparece nas contas nacionais, mas nunca circula pela economia real”, porque os ganhos de produtividade não seriam convertidos em renda para a maioria dos trabalhadores.
Quedas nas bolsas e empresas afetadas
Na segunda-feira, ações de empresas de software sofreram perdas relevantes, e analistas atribuíram parte do movimento à viralização do post. Ações da Datadog, CrowdStrike e Zscaler caíram mais de 9% cada uma ao longo do dia. A International Business Machines teve queda de 13%, seu pior desempenho em um único dia desde 2000.
Setores financeiros e de pagamentos também sentiram impacto, com American Express recuando cerca de 7%, e JPMorgan, Citigroup e Morgan Stanley caindo mais de 4%. Mastercard e Visa registraram quedas de mais de 4%.
Críticas de especialistas e opinião da imprensa
Nem todos consideram o cenário provável. O colunista Robert Armstrong, do Financial Times, escreveu que “A explicação mais comum para a renovada apreensão [nos mercados na segunda-feira] foi uma postagem no blog da Citrini Research sobre como a IA poderia levar à demissão de muitos profissionais de alta renda e prejudicar a economia”.
O Wall Street Journal observou que “não é preciso muito para provocar movimentos turbulentos nas ações em um mercado dominado por ações de tecnologia e ansioso pelas perspectivas da inteligência artificial”, e acrescentou que “quando um dos fatores por trás da queda de 800 pontos do Dow Jones foi um argumento hipotético de 7 mil palavras” isso revelou a sensibilidade atual do mercado.
Em artigo na Fortune, o editor Nick Lichtenberg criticou o relatório por, segundo ele, possivelmente “ignorar a adaptabilidade humana e a resposta institucional”, e por supor que ganhos de produtividade destruiriam salários humanos permanentemente.
Exemplos do relatório e preocupações sociais
O texto dá exemplos concretos no formato ficcional, como o caso de uma gerente sênior de produto que tinha salário de US$ 180 mil por ano e, após demissões, passou a ganhar US$ 45 mil dirigindo para um aplicativo. Os autores afirmam que a multiplicação dessa dinâmica por centenas de milhares de trabalhadores pressionaria para baixo os salários na economia de serviços.
O relatório também descreve impactos em setores como imobiliário, pagamentos e entrega de comida, onde agentes de IA e veículos autônomos reduziriam a necessidade de intermediários e, consequentemente, receita para empresas hoje dominantes.
O que dizem empresas e o que vem a seguir
Executivos reagiram minimizando os temores. O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, afirmou, “Na minha opinião, sairemos vencedores”, e disse que o banco usará a tecnologia a seu favor.
Os autores do post reconhecem que “temos certeza de que alguns desses cenários não se concretizarão” e pedem que investidores e sociedade avaliem até que ponto suas premissas dependem de hipóteses que podem não resistir à década.
Especialistas ouvidos pela imprensa lembram que a história mostra que ganhos de produtividade tendem a realocar valor, e que a adaptação humana e respostas institucionais podem mitigar cenários extremos, mas os movimentos recentes nas bolsas mostram que narrativas sobre IA têm poder real para influenciar mercados.
Em resumo, o texto da Citrini Research trouxe para o centro do debate a expressão “PIB fantasma” e o risco de desemprego em massa diante da IA, temas que agora pesam na avaliação de riscos por investidores e formuladores de política pública, e que deverão continuar a movimentar discussões e mercados nas próximas semanas.