Por que 51% dos criadores de conteúdo já cogitaram abandonar a carreira, segundo estudo ManyChat, e como exaustão, baixa remuneração e a IA pressionam a profissão

Rotina intensa, reconhecimento insuficiente e incerteza sobre monetização fazem metade dos criadores de conteúdo considerar desistir nos últimos 12 meses, aponta pesquisa

Metade dos profissionais que criam conteúdo nas redes sociais já pensou em parar de atuar nessa área, e o motivo não é falta de audiência, é desgaste.

O trabalho por trás de vídeos curtos e posts envolve horas de planejamento, gravação, edição e atendimento ao público, e nem sempre isso resulta em remuneração ou reconhecimento.

Os números e relatos que explicam esse dilema foram reunidos por um levantamento citado pela imprensa, conforme informação divulgada pelo g1

O que mostra o estudo

O relatório da ManyChat aponta que 51% dos criadores consideraram abandonar a carreira nos últimos 12 meses. Entre as razões mais citadas estão falta de crescimento, baixa renda e perda de motivação.

Entre os motivos específicos, 25% disseram que não estavam crescendo, 23% afirmaram que não ganhavam dinheiro suficiente, 17% relataram perda de motivação ou interesse, 16% disseram que a rotina era demorada demais e 11% apontaram esgotamento criativo, segundo o estudo da ManyChat.

Carga de trabalho e a percepção pública

Apesar da imagem de liberdade, muitos criadores relatam uma rotina comparável a empregos tradicionais. O estudo indica que criadores gastam quase 20 horas por semana apenas com planejamento, gravação e edição.

Responder comentários e mensagens consome de 2 a 3 horas por semana, e para 5% dos criadores a gestão da caixa de entrada já equivale a um trabalho em tempo integral.

Esse esforço nem sempre é visto como profissão, 31% afirmam que as pessoas ainda não veem a criação de conteúdo como um trabalho de verdade. Quando questionados sobre o que é mais incompreendido, 26% disseram que as pessoas acham que é fácil, 19% que não leva tanto tempo e 12% ouviram que “criadores são ricos”.

Ser um criador de conteúdo é muito mais do que gravar um vídeo ou tirar uma foto para postar nas redes sociais. É necessário desenvolver habilidades técnicas e, acima de tudo, ter um desejo genuíno de servir e impactar positivamente um público específico, afirma Monty Lans, citado no relatório.

Renda, estrutura e visão de negócio

A falta de estrutura profissional impacta diretamente a renda. Quase três em cada quatro criadores ganham menos de US$ 10 mil por ano com conteúdo, e apenas um em cada 10 ultrapassa os US$ 30 mil anuais, aponta a ManyChat.

As plataformas representam 39% dos ganhos, parcerias com marcas e patrocínios respondem por 28%, e outras fontes, como afiliados e cursos, aparecem com participação bem menor.

Refletindo isso, só 14% se veem como empresa, 36% como marca e 50% como uma pessoa que posta conteúdo, o que ajuda a explicar por que muitos mantêm a atividade como trabalho paralelo.

Saúde mental, geração Z e o impacto da presença constante

O estudo mostra que a pressão por presença constante nas redes pesa na saúde mental. Uma em cada quatro pessoas relata sentir-se esgotada, sobrecarregada ou apática após passar tempo nas redes.

Entre criadores, 55% da Geração Z consideraram abandonar a carreira no último ano, índice acima da média geral, o que revela vulnerabilidade entre os mais jovens.

Além disso, uma em cada 10 pessoas gostaria de fazer uma pausa nas redes, mas sente que não pode, seja por razões profissionais ou pela dificuldade de se desconectar.

IA, competição e os próximos passos

Para 2026, a principal preocupação apontada pelos criadores é a competição com conteúdo gerado por inteligência artificial. Ao mesmo tempo, a maioria já planeja usar IA para tarefas como brainstorm, escrita de legendas, pesquisa e edição.

O público mostra resistência, 41% dizem que não apoiariam um criador que se tornasse 100% IA, o que coloca criadores entre a necessidade de eficiência e a busca por autenticidade.

Metodologicamente, a ManyChat entrevistou 2.028 pessoas globalmente, sendo 1.000 criadores autodeclarados e 1.028 consumidores, com nível de confiança de 95% e margem de erro de cerca de 2%, conforme o relatório.

O conjunto de dados indica que a economia dos criadores cresce, mas enfrenta desafios estruturais e psicológicos, e que muitos só conseguem resultados consistentes quando tratam a atividade como um negócio organizado, com estratégias, processos e limites claros.