quinta-feira, junho 4, 2026

Por que a nova reforma da Previdência deveria estar sendo pensada agora, com RGPS em déficit de R$ 436 bilhões em 2025, envelhecimento e informalidade em alta

Share

Reforma da Previdência enfrenta alta informalidade, benefícios indexados ao salário mínimo e envelhecimento, pressionando o RGPS e exigindo mudanças no modelo de custeio

O Brasil vive um momento em que a discussão sobre uma nova reforma da Previdência volta a ganhar força, mesmo após alterações em 2019. A combinação de mercado de trabalho em transformação, benefícios atrelados ao salário mínimo e o envelhecimento da população criou uma pressão crescente sobre as contas públicas.

As consequências já aparecem nos números, com um rombo relevante em 2025 que reflete tanto a retração da arrecadação quanto o avanço das despesas previdenciárias. Especialistas consultados e dados oficiais indicam que sem ajustes o desequilíbrio tende a aumentar nas próximas décadas.

Nas próximas seções vamos explicar as causas desse choque fiscal, mostrar os dados mais recentes do RGPS e discutir que mudanças na reforma da Previdência terão de ser pensadas para tornar o sistema sustentável.

conforme informações divulgadas pelo Senado, pela Câmara dos Deputados, pela Instituição Fiscal Independente e por dados do governo federal

Por que o déficit cresceu, e o que dizem os números

Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal precisou complementar para pagar benefícios foi de R$ 436 bilhões. A maior parte desse valor destinou-se a cobrir o déficit do Regime Geral de Previdência Social, o RGPS, que ficou em mais de R$ 320 bilhões – R$ 17 bilhões a mais do que em 2024.

O crescimento do rombo decorre da combinação entre queda da arrecadação e elevação das despesas. Segundo a Instituição Fiscal Independente, a despesa total da Previdência chegou a R$ 1,04 trilhão em 2025, enquanto o déficit passou de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025, em valores de janeiro de 2026.

Alta informalidade, novas ocupações e menos recolhimento

Um dos vetores centrais para a perda de receita é a alta informalidade no mercado de trabalho e o surgimento de ocupações que não contribuem para a Previdência, como trabalhadores de aplicativo. Com menos contribuintes formais, o fluxo de recursos para o RGPS se reduz, agravando o desequilíbrio.

Bernardo Schettini, consultor do Senado, destaca o choque entre arrecadação e despesas, e atribui parte da pressão à política de valorização do salário mínimo, que eleva custos do sistema porque mais de 60% dos benefícios são indexados ao piso nacional. Ele afirma, “É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência”.

Envelhecimento demográfico e o peso sobre o futuro do RGPS

O envelhecimento da população é outro fator que agrava a necessidade de uma nova reforma da Previdência. O consultor da Câmara dos Deputados, Leonardo Rolim, lembra que a estrutura demográfica muda de forma acelerada, com projeções que mostram um aumento expressivo no número de idosos nas próximas décadas.

Rolim afirma, “Se a gente olhar para 2070, quando quem está entrando no mercado de trabalho agora provavelmente vai estar se aposentando, nós vamos mais do que dobrar novamente o número de idosos. Nós vamos ter em 2070 mais ou menos seis vezes o número de idosos que tínhamos em 2000”. Ele alerta para o descompasso entre contribuintes e beneficiários, observando que, nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou.

No sistema de repartição adotado no Brasil, as contribuições dos trabalhadores ativos financiam os benefícios dos aposentados e pensionistas no momento, sem formação de fundos individuais para cada segurado. Com menos trabalhadores por aposentado no futuro, ou as contribuições terão de subir muito, ou os valores pagos aos aposentados cairão para manter o sistema viável.

Crescimento do número de benefícios e ritmo das despesas

Outro ponto de pressão é o aumento no volume de benefícios. Pedro Souza, analista da IFI, aponta que o total de beneficiários passou de 28,3 milhões em 2015 para 35,2 milhões em 2025. O crescimento médio anual do volume de benefícios foi de 2,21% a.a., em média.

Em termos de receita e despesa do RGPS, a IFI indica que a receita cresceu cerca de 1,82% a.a. em termos reais na última década, enquanto a despesa aumentou em média 3,37% a.a.. Esse descompasso entre crescimento de despesas e receitas explica grande parte do aumento do déficit, e é o principal argumento para discutir uma nova reforma da Previdência.

O que precisa ser repensado na reforma da Previdência

Especialistas consultados pelo Congresso e por instituições independentes defendem que a reforma da Previdência, quando for proposta, deverá atacar simultaneamente vários elementos, incluindo o modelo de custeio, a base de contribuintes e regras que ligam benefícios ao salário mínimo.

Entre as linhas de debate possíveis estão ajustar o modelo de contribuição para abarcar formas modernas de trabalho, rever a indexação de benefícios que pressiona as despesas, e avaliar mecanismos de transição que reduzam o impacto sobre beneficiários atuais e futuros.

Os dados mostram que sem mudanças estruturais a tendência é de um déficit crescente nas próximas décadas, o que coloca a reforma da Previdência entre os temas centrais para a sustentabilidade fiscal do Brasil.

Leia Mais

Fique por dentro