Entenda como queda da arrecadação, R$ 436 bilhões de déficit em 2025 e projeções que podem quadruplicar o rombo em 75 anos tornam urgente a reforma da Previdência
A combinação de mercado de trabalho em transformação, benefícios indexados ao salário mínimo e envelhecimento da população reacende a discussão sobre a necessidade de uma nova reforma da Previdência.
A última alteração ocorreu em 2019, mas fatores estruturais fazem com que as contas públicas voltem a ficar pressionadas, exigindo soluções que garantam sustentabilidade do sistema no longo prazo.
No texto a seguir explicamos por que a arrecadação recua, por que as despesas sobem e quais são os pontos centrais que deveriam orientar uma nova reforma da Previdência.
conforme informação divulgada por consultores do Senado, da Câmara, pela IFI e por dados do governo federal.
Arrecadação em queda e despesas crescendo
Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal teve que colocar a mais para pagar benefícios, aposentadorias e pensões foi de R$ 436 bilhões. A maior parte desse valor foi para cobrir o déficit do RGPS, mais de R$ 320 bilhões, valor que representa R$ 17 bilhões a mais do que em 2024.
O enfraquecimento da arrecadação está ligado à alta informalidade e ao surgimento de novas formas de trabalho que não contribuem para a Previdência, como trabalhadores de aplicativo, e ao ritmo de aumento dos gastos por causa da valorização do salário mínimo.
Na avaliação de Bernardo Schettini, consultor do Senado, “É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência”.
Envelhecimento populacional e o descompasso entre contribuintes e beneficiários
Os dados demográficos também agravam o problema, porque o Brasil envelhece e a natalidade cai, o que reduz a proporção de trabalhadores ativos em relação aos idosos. No sistema de repartição, esse descompasso pressiona as contas de forma direta.
Como alerta Leonardo Rolim, consultor da Câmara dos Deputados, “Se a gente olhar para 2070, quando quem está entrando no mercado de trabalho agora provavelmente vai estar se aposentando, nós vamos mais do que dobrar novamente o número de idosos. Nós vamos ter em 2070 mais ou menos seis vezes o número de idosos que tínhamos em 2000”.
Rolim ressalta ainda que “nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa, potenciais contribuintes da Previdência, cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou”. Esse desequilíbrio tende a aumentar o rombo sem mudanças no modelo.
Crescimento do número de benefícios e pressão sobre o financiamento
O volume de benefícios concedidos também cresceu de forma significativa. Segundo dados citados pela IFI, em 2015 havia 28,3 milhões de beneficiários e, em 2025, esse total chegou a 35,2 milhões, com um crescimento médio anual de 2,21% a.a.
O analista Pedro Souza destaca que, em valores reais de janeiro de 2026, “o déficit da previdência saiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025”. Ele observa que isso decorre mais do aumento das despesas, que chegaram a R$ 1,04 trilhão em 2025, do que de uma expansão equivalente das receitas.
Em termos médios, a receita do RGPS cresceu 1,82% a.a., enquanto a despesa avançou 3,37% a.a., o que evidencia um problema estrutural de financiamento que torna a discussão sobre a reforma da Previdência central.
O que indicar em uma nova reforma da Previdência
Os problemas identificados apontam para três vetores que deveriam orientar propostas: modernizar o modelo de custeio para ampliar a base de contribuintes, rever regras de indexação de benefícios atrelados ao salário mínimo e ajustar parâmetros diante do envelhecimento populacional.
A necessidade de discutir o tema é reconhecida pelo governo, e projeções oficiais indicam que o déficit do RGPS pode mais que quadruplicar ao longo dos próximos 75 anos, o que reforça a urgência de medidas que equilibrem receita e despesa sem sacrificar a proteção social.
Uma reforma da Previdência bem desenhada precisará encontrar equilíbrio entre sustentabilidade fiscal e garantia de renda para os atuais e futuros aposentados, com mudanças que levem em conta informalidade, novas ocupações e dinamismo demográfico.