Por que a reforma da Previdência precisa voltar à mesa agora, saiba como rombo do RGPS, informalidade, benefícios indexados e envelhecimento pressionam contas

Como a reforma da Previdência pode evitar que o déficit do RGPS mais que quadruplicar, diante de informalidade, benefícios indexados ao mínimo e envelhecimento

A discussão sobre uma nova reforma da Previdência ganha força mesmo com a última mudança implementada em 2019, porque fatores estruturais voltaram a pressionar as contas públicas.

Alta informalidade, ocupações que não recolhem para o sistema, e benefícios atrelados ao salário mínimo elevam despesas em ritmo superior ao da inflação, enquanto a população envelhece.

Especialistas e dados oficiais mostram números que complicam o financiamento do modelo atual, e apontam para a necessidade de ajustes no custeio e nas regras, caso contrário o rombo tende a crescer, conforme informação divulgada pelo Tesouro Nacional, pelo Senado, pela Câmara dos Deputados e pela Instituição Fiscal Independente (IFI).

Recolhimento em queda e despesas em alta

Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal teve que colocar a mais para para pagar benefícios, aposentadorias e pensões foi de R$ 436 bilhões, segundo dados oficiais.

A maior parte desse dinheiro foi para cobrir o déficit do RGPS, mais de R$ 320 bilhões, R$ 17 bilhões a mais do que em 2024, o que evidencia um desequilíbrio crescente entre receitas e despesas.

O cenário é explicado pela alta informalidade do mercado de trabalho e pelo surgimento de novas formas de ocupações que não recolhem para a previdência, como é o caso dos trabalhadores de aplicativo, aponta consultoria parlamentar.

Bernardo Schettini, consultor do Senado, destaca: “É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência”, disse, ressaltando a necessidade de repensar como o sistema é financiado.

Envelhecimento da população e descompasso

O envelhecimento do país é outro motor da pressão fiscal, com projeções que mudam a relação entre contribuintes e beneficiários nas próximas décadas.

Leonardo Rolim, consultor da Câmara dos Deputados, afirma: “Se a gente olhar para 2070, quando quem está entrando no mercado de trabalho agora provavelmente vai estar se aposentando, nós vamos mais do que dobrar novamente o número de idosos. Nós vamos ter em 2070 mais ou menos seis vezes o número de idosos que tínhamos em 2000”.

Rolim lembra ainda que “nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa, potenciais contribuintes da Previdência, cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou”, o que cria um descompasso difícil de sustentar no futuro.

No sistema de repartição usado no Brasil, as contribuições dos trabalhadores ativos financiam os benefícios atuais, sem contas individuais, por isso menos trabalhadores ativos por aposentado agrava o rombo ao longo do tempo.

Crescimento no número de benefícios e impacto fiscal

O aumento do volume de benefícios também pressiona as contas: “O total, há 10 anos, em 2015, era de 28,3 milhões de beneficiários. Atualmente, em 2025, totalizou 35,2 milhões”, aponta levantamento da IFI.

Segundo Pedro Souza, analista da IFI, “o volume de benefícios emitidos é de 2,21% a.a., em média. Isso por si só já seria uma pressão importante”.

O impacto aparece nas contas públicas, com o déficit da Previdência ampliado em termos reais, “o déficit da previdência saiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025”, e as despesas totais alcançando R$ 1,04 trilhão em 2025.

A receita do RGPS cresceu 1,82% a.a., em termos reais, nos últimos 10 anos, enquanto a despesa cresceu perto do dobro, um aumento médio de 3,37% a.a., segundo a IFI, o que aponta para financiamento insuficiente do modelo vigente.

Possíveis caminhos para a reforma da Previdência

Com o quadro descrito, especialistas e autoridades indicam que a próxima reforma da Previdência precisará abordar o custeio, a indexação de benefícios e a formalização do trabalho.

Entre as medidas mencionadas estão ajustes na vinculação de benefícios ao salário mínimo, incentivos à formalização de empregos, e revisões nas regras de contribuição, sempre considerando impactos sociais e políticos.

O tema já foi apontado pelo governo como prioritário, o que abre espaço para debates técnicos e políticos nos próximos meses, com o objetivo de tornar o sistema mais sustentável no longo prazo.