A resposta do Irã a um ataque dos EUA pode mudar por causa dos protestos internos, da retórica rígida de Teerã e das incertezas de Washington, elevando riscos para países do Golfo e Israel
Nos últimos dias, declarações de líderes iranianos deram a entender que qualquer ataque norte-americano será tratado como um ato de guerra, o que altera o cálculo habitual de retaliação calibrada pelo Irã.
Ao mesmo tempo, o país atravessa uma das maiores ondas de protestos desde 1979, com repressão violenta, milhares de mortos segundo organizações de direitos humanos, e grande instabilidade interna.
Esses fatores, somados à retórica ambígua do presidente dos Estados Unidos, aumentam a probabilidade de uma reação diferente de Teerã, com risco de rápida escalada regional, conforme informação divulgada pelo g1.
Pressão interna e mudança de prioridades
A dimensão dos protestos impressionou autoridades iranianas e, durante as semanas de distúrbio, forças de segurança chegaram a perder temporariamente o controle de bairros e cidades, segundo relatos citados pelo g1.
A resposta violenta do Estado e o apagão de internet tornaram mais difícil verificar números exatos, porém, organizações e profissionais da saúde apontam que milhares de pessoas teriam sido mortas, detidas ou feridas.
Para os líderes em Teerã, preservar o controle interno pode se sobrepor ao modelo anterior de retaliação assinalada, porque qualquer ataque externo pode ser usado como justificativa para nova onda de prisões e sentenças rígidas.
Padrões anteriores e sinais de aviso
Historicamente, o Irã optou por retaliações limitadas e sinalizadas para evitar uma guerra maior, mesmo após confrontos sérios com os EUA.
Por exemplo, após ataques dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho de 2025, o Irã respondeu no dia seguinte com um ataque com mísseis à Base Aérea de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos.
Segundo o presidente Trump, o Irã havia alertado antecipadamente sobre o ataque, o que permitiu que as defesas antiaéreas interceptassem a maior parte dos mísseis, Nenhuma morte foi registrada, e o episódio foi visto como uma demonstração de determinação, sem intenção de ampliar o conflito.
Um padrão similar aconteceu em janeiro de 2020, quando, após os Estados Unidos assassinarem Qassem Soleimani, o Irã retaliou cinco dias depois com mísseis contra a base de Ain al-Asad, no Iraque, e dezenas relataram posteriormente lesões cerebrais traumáticas, embora Nenhuma morte foi registrada.
Por que pode ser diferente agora
A grande diferença atual é o ambiente doméstico no Irã, a amplitude dos protestos e a sensação de vulnerabilidade do regime, que podem levar a uma escolha por ações mais rápidas ou mais contundentes para reafirmar dissuasão externa e controlar a situação interna.
Declarações de altos comandantes das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária afirmam que qualquer ataque será tratado como ato de guerra, e essa retórica inflexível aumenta o risco de reações que atinjam não só os EUA, como também países do Golfo e Israel, mesmo que eles não estejam diretamente envolvidos.
Além disso, a própria ambiguidade do presidente Trump, que afirmou que “a ajuda está a caminho” em meio aos distúrbios, alimentou expectativas dentro do Irã e entre manifestantes, complicando ainda mais a tomada de decisão de Washington, conforme informação divulgada pelo g1.
Cenários possíveis e consequências regionais
Um ataque limitado dos EUA pode, por um lado, permitir a Washington declarar um resultado militar, mas, por outro, dar a Teerã um pretexto para intensificar a repressão interna, com prisões em massa e sentenças mais duras.
Uma campanha militar mais ampla que fragilize o Estado iraniano poderia levar ao colapso da autoridade central, em um país de mais de 90 milhões de habitantes, e abrir caminho para violência entre facções e instabilidade prolongada na região.
Países que hospedam bases americanas no Golfo e Israel ficariam em risco imediato de retaliação iraniana, criando a perspectiva de um conflito que se espalhe além do Irã e dos Estados Unidos.
Washington também enfrenta restrições políticas, dado que ameaças de intervenção foram amplamente divulgadas no Irã, aumentando a expectativa entre manifestantes por apoio externo, o que torna qualquer ação norte-americana geopoliticamente sensível.
O equilíbrio perigoso, e o custo do erro
Ambos os lados sabem que o outro está em situação limitada: o Irã sente-se menos forte militarmente após a guerra dos 12 dias, e o presidente americano tem pouca disposição por um conflito em larga escala.
Essa consciência mútua pode funcionar como freio, mas também pode levar a interpretações erradas, com cada lado superestimando sua capacidade ou subestimando a reação adversária.
Se a resposta do Irã a um ataque dos EUA for mais rápida e ostensiva do que o padrão anterior, aumentará muito o risco de erros de cálculo e de uma escalada difícil de controlar, com custos elevados para milhões de pessoas no Irã e para toda a região, conforme informação divulgada pelo g1.