Com isenção para produtos do T-MEC, exportações mexicanas aos EUA cresceram 5,66% em 2025, mas a renegociação do acordo em 2026 pode pôr fim à vantagem
O México conseguiu transformar a onda de medidas protecionistas de Donald Trump em vantagem comercial, ao aproveitar as regras do T-MEC e ganhar mercado nos Estados Unidos.
Empresas reorientaram cadeias produtivas e passaram a priorizar importações que atendem ao tratado, reduzindo o impacto das novas tarifas americanas.
Os números e análises mostram um ganho concreto para o México em 2025, conforme informação divulgada pelo g1.
Como as tarifas de Trump favoreceram o México
O anúncio do chamado “Dia da Libertação” por Donald Trump, em 2 de abril de 2025, mudou o mapa do comércio global, ao aplicar tarifas mais altas a dezenas de países, deixando fora inicialmente México e Canadá alguns setores.
Especialistas apontam que a principal razão para o benefício mexicano foi a isenção concedida a produtos que cumprem as exigências do T-MEC. “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”, disse Erica York, analista do Centro de Política Federal de Impostos do Tax Foundation.
Com isso, exportadores mexicanos que antes preferiam pagar tarifas baixas para evitar burocracia passaram a cumprir o tratado, aproveitando a vantagem comparativa junto aos compradores americanos.
Dados que explicam a vantagem
O Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) indica que os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6%, em outubro de 2025. O Canadá registrou 3,9% no mesmo cálculo.
Em contraste, a tarifa efetiva para os produtos chineses atingiu 37,1% em 2025, segundo a PWBM, e a tarifa efetiva média para o resto do mundo passou a 10,91% em outubro, ante 2,2% em janeiro de 2025.
Na prática, essas diferenças fizeram importadores e consumidores americanos preferirem bens originados no México sempre que possível, e contribuíram para que o país registrasse um “aumento de quase 6%” nas exportações aos EUA, e um crescimento geral da ordem de 5,66% em 2025, segundo dados citados pelo g1.
Setores ganhos e perdedores
A vantagem mexicana não foi uniforme por setores. Enquanto o comércio geral com os EUA cresceu, o setor automotivo do México teve expansão modesta, com apenas 0,9% de aumento em 2025, mesmo após negociações que limitaram as tarifas automotivas a componentes “não fabricados nos Estados Unidos”, fora do T-MEC.
Por outro lado, aço e alumínio, sujeitos a tarifas de 25%, registraram queda das exportações mexicanas para os EUA, mostrando que a proteção do T-MEC beneficiou principalmente produtos que atendem às regras de origem do tratado.
O teste decisivo é a renegociação do T-MEC
O maior desafio para consolidar essa vantagem é a renegociação do T-MEC, prevista para 2026. A incerteza aumentou quando Donald Trump afirmou que, para ele, o T-MEC parece “irrelevante”, e declarou, em visita a uma fábrica da Ford em Michigan, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos”.
A reação mexicana foi imediata. A presidente Claudia Sheinbaum afirmou estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar”, lembrando a profunda integração industrial entre os países.
O economista Mario Campa, da Universidade Columbia, alertou para cenários que vão da renovação do tratado ao risco de desintegração do bloco, e pediu que o México prepare planos alternativos para diversificar comércio, citando o “Plano México” anunciado pela presidente Sheinbaum no início de 2025.
O que está em jogo para o México
Se o T-MEC for mantido, com regras que preservem isenções para produtos que cumprem o acordo, o México pode consolidar sua posição como o principal fornecedor dos EUA, continuando a atrair investimentos e indústrias que praticam nearshoring.
Se o acordo for enfraquecido ou abandonado, a vantagem derivada das atuais tarifas de Trump pode evaporar rápido, e o México terá que acelerar a diversificação de parceiros, estratégia que o Canadá já avançou ao buscar acordos com outros mercados.
Enquanto as negociações seguem, empresas e governos monitoram sinais como a aproximação comercial entre Canadá e China, que, na avaliação de Campa, é um “mau sinal” para a sobrevivência do bloco norte-americano.
Em resumo, as tarifas de Trump reorganizaram fluxos comerciais em favor do México em 2025, mas o resultado final dependerá das negociações do T-MEC em 2026, e da capacidade do país de transformar ganhos temporários em vantagem estrutural.