O retorno das ofertas, o peso da Selic a 15% ao ano, por que empresas optam por listagem nos EUA e o que investidores esperam com cortes do BC e sinais de ajuste fiscal
Depois de um hiato de quatro anos, empresas brasileiras voltam a preparar ofertas públicas iniciais, com o banco digital PicPay abrindo capital na quinta-feira, e o Agibank anunciando IPO, sem data definida.
O movimento tem relação direta com diferenças de juros entre Brasil e Estados Unidos, além de critérios setoriais e a presença de pares estrangeiros nas bolsas internacionais.
O leitor encontrará a seguir por que muitos grupos preferem a Nasdaq, como os juros elevados afetaram a demanda por ações e o que especialistas esperam para 2026.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que empresas brasileiras estão listando nos EUA
Empresas como PicPay e Agibank optaram por listar nos Estados Unidos, um movimento já adotado por outras fintechs brasileiras que escolheram Wall Street, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP.
Segundo Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”, conforme registrado pelo g1.
A decisão combina fatores práticos, como a base de investidores nos EUA, comparabilidade com pares internacionais e condições de mercado, e razões estratégicas específicas de cada empresa.
O papel dos juros elevados e a redução do apetite por risco
Um dos motivos centrais para a escassez de IPOs no Brasil foi o aumento dos juros internos, que tornaram a renda fixa muito mais atraente que a renda variável.
Conforme o g1, as taxas de juros elevadas do país, atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, ajudam a explicar por que companhias nacionais têm optado por bolsas de fora do país.
O diretor global de investment banking do Itaú BBA, Roderick Greenlees, resumiu a consequência, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”, conforme divulgado pelo g1.
O histórico recente mostra movimentações fortes na Selic, com aumento de 7,25 pontos percentuais em 2021, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, e avanço até 15% em junho do ano passado, um aumento de 5,75 p.p. em relação a 2021, segundo informações do g1.
Bruno Saraiva, do Bank of America no Brasil, destacou o efeito sobre fundos, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”, conforme publicado pelo g1.
Comparação com os EUA e o impacto dos cortes de juros lá
Nos Estados Unidos, o ciclo de cortes começou em setembro do ano passado, quando o Federal Reserve reduziu as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%, e desde então houve mais dois cortes.
Conforme o g1, atualmente as taxas nos EUA estão na faixa de 3,50% a 3,75%, o que cria ambiente mais favorável para ofertas e maior apetite por risco entre investidores americanos.
Essa diferença de trajetória entre bancos centrais explica parte da atração por listagens estrangeiras, especialmente para empresas que buscam visibilidade internacional e uma base de investidores mais disposta a comprar ações de maior risco.
O que esperar para 2026 e além
Especialistas consultados pelo g1 avaliam que a expectativa de cortes do Banco Central do Brasil já no primeiro trimestre melhora a perspectiva para IPOs no país nos próximos meses.
O boletim Focus indica que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual, segundo o g1.
Roderick Greenlees observa cautela, “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”, conforme divulgado pelo g1.
Bruno Saraiva conclui, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, e acrescenta uma avaliação sobre 2027, “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro.”, conforme registrado pelo g1.
No conjunto, IPOs brasileiros podem voltar a aparecer com mais frequência se juros caírem e houver sinais claros de compromisso fiscal, mas a recuperação deve ser gradual e seletiva.