Causas, medidas políticas, movimentação de investidores e impactos domésticos, explicamos por que o dólar caiu, quem perde e o que esperar nos próximos meses
Nas últimas semanas, o dólar registrou quedas que levaram a moeda ao menor nível em quatro anos frente a uma cesta de moedas.
Em comparação com o euro e a libra esterlina, a moeda também recuou para patamares não vistos em vários anos, com perdas de cerca de 3% em aproximadamente uma semana.
As explicações envolvem decisões de governo, tensões comerciais, movimentos em mercados de títulos e apostas de investidores, conforme informação divulgada pelo g1.
O que provocou a queda recente do dólar
O dólar vinha se valorizando entre 2020 e 2022, por conta do ritmo de recuperação dos Estados Unidos após a pandemia e de juros relativamente altos, mas sofreu forte reversão em 2025 e no início de 2026.
O índice do dólar, que acompanha a moeda em relação a uma cesta de moedas, chegou a cair em quase 10% no ano passado, o pior desempenho desde 2017, e nas semanas mais recentes acumula quedas agudas após anúncios ligados a tarifas de importação e tensões geopolíticas.
Grande parte do declínio ocorreu após o chamado “Dia da Libertação”, em 2 de abril de 2025, com o anúncio de tarifas de Donald Trump, e foi ampliado por atritos recentes entre EUA e Europa sobre a Groenlândia, além de especulações sobre ações coordenadas envolvendo o Japão.
O papel das políticas e das declarações de mercado
Analistas atribuem parte da desvalorização às incertezas sobre as políticas do governo americano e à percepção de volatilidade, que têm levado investidores a avaliar menos o ativo dólar como porto seguro.
Robin Brooks, do Instituto Brookings, afirma, “Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações”.
Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do grupo ING, resumiu a tendência, “A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano”.
Impactos econômicos, inflação e decisões do Fed
Um dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos em viagens e para produtos importados, e há risco de que a tendência, se mantida, pressione a inflação interna dos EUA por meio do aumento de preços de bens importados.
O futuro da moeda também depende do ritmo de corte de juros pelo Federal Reserve, e da nomeação para a presidência do banco central, já que expectativas por juros menores tendem a enfraquecer a moeda.
O presidente americano nomeou nesta sexta-feira (30/1) o economista Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no comando do Fed, indicação que ainda precisa ser confirmada pelo Senado.
Para onde foi o dinheiro e quais são as previsões
Alguns investidores buscaram ativos alternativos, alimentando a alta do ouro, cuja cotação dobrou no ano passado, e houve valorização de moedas como o euro e a libra em janeiro.
Há sinais também de realocação em mercados emergentes, com 11 entre 19 moedas acompanhadas pela Oxford Economics subindo mais de 1%, e fundos de pensão da Holanda e da Dinamarca reduzindo posições em títulos do Tesouro americano.
Comentários do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, negando a intervenção dos Estados Unidos para ajudar o Japão, ajudaram a estabilizar o dólar esta semana.
Mesmo assim, o ING projeta que o dólar pode cair mais 4% a 5% ao longo deste ano, à medida que aumentam as perspectivas de crescimento fora dos Estados Unidos.
Em resumo, a rápida queda do dólar combina fatores políticos, movimentos de mercado e expectativas sobre juros, e pode trazer ganhos para exportadores americanos, mas também risco de inflação e mais volatilidade no curto prazo. A direção nos próximos meses vai depender de decisões do governo, do Fed e do apetite dos investidores por ativos em outros países.