Por que o dólar atingiu a maior baixa em 4 anos, pode cair ainda mais, e como Trump, o Fed e investidores influenciam preços, inflação e mercados
Entenda por que o dólar vem recuando frente a outras moedas, quais fatores internos e externos pressionam a cotação, e o que analistas e governos dizem sobre os próximos passos
Nas últimas semanas, o dólar caiu para o seu ponto mais baixo em quatro anos em relação a uma cesta de moedas e recuou cerca de 3% em uma semana frente ao euro e à libra esterlina.
O enfraquecimento reduz o poder de compra dos americanos, pode pressionar preços de importados e alimenta debate sobre intervenção, política monetária e riscos para a inflação doméstica.
O texto a seguir resume causas, consequências e previsões, conforme informação divulgada pelo g1.
O que aconteceu com a cotação e os números mais relevantes
O índice do dólar, que mede a moeda contra uma cesta internacional, teve queda de quase 10% em 2025, o pior desempenho desde 2017. Em janeiro de 2026, a queda se intensificou, com movimentações que chegaram a derrubar a moeda em cerca de 3% em torno de uma semana.
Movimentos pontuais, como o anúncio de tarifas de importação em abril de 2025, batizado por mercados de “Dia da Libertação”, e escaladas diplomáticas recentes, contribuíram para a perda de confiança, segundo analistas.
Por que o dólar está caindo, segundo analistas
Especialistas apontam que parte da queda reflete preocupação com a natureza errática de políticas do governo americano, incluindo tarifas e tensões comerciais. Robin Brooks afirma, “Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações”.
Thierry Wizman, estrategista do grupo Macquarie, avalia que a rápida escalada de tensões, como a crise envolvendo a Groenlândia, desencorajou investidores, e que apostas por maior volatilidade na moeda aumentaram.
Houve ainda fluxos para ativos fora dos EUA, e movimentos no mercado japonês de títulos que levaram traders a explorar diferenças entre iene e dólar, além de dúvidas sobre possíveis intervenções coordenadas.
Para onde vai o dinheiro e quais os impactos
A saída de recursos ajudou a impulsionar o preço do ouro, cuja cotação dobrou no ano passado, à medida que investidores buscaram porto seguro. Euro, libra e várias moedas emergentes se valorizaram frente ao dólar em janeiro.
Fundos internacionais também reduziram posições em títulos do Tesouro americano, mas o mercado acionário dos EUA seguiu registrando recordes, e o movimento de venda de ativos americanos permaneceu limitado, segundo analistas do setor.
O ING projeta que o dólar pode cair mais 4% a 5% em 2026, se a trajetória de crescimento for mais forte fora dos EUA e se o apetite por ativos estrangeiros aumentar.
O papel de Trump, do Fed e o que pode mudar nos próximos meses
O governo dos EUA tem sinalizado preferência por um câmbio mais fraco, que favorece exportações, e o presidente já comentou que, apesar de não parecer bom, “você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco, do que com um dólar forte”.
Alterações na liderança do Fed e cortes de juros anunciados ou esperados podem reduzir ainda mais os atrativos da moeda americana, e assim pressionar a cotação. A indicação de Kevin Warsh para substituir Jerome Powell, feita pelo presidente, ainda depende do Senado.
Analistas, como Chris Turner do ING, resumem a visão dos mercados: “A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano”. Contudo, há consenso sobre a direção, não sobre o momento exato das quedas.
Se a moeda cair por motivos de crescimento externo e menor diferencial de juros, empresas exportadoras nos EUA podem se beneficiar, mas se a queda for resultado de sinais de políticas econômicas fracas, isso pode ser um alerta para mercados e investidores.
Em resumo, o dólar recuou por uma combinação de fatores políticos, mudanças nas perspectivas de juros e deslocamento de capitais, e pode cair mais, dependendo de ações do governo, do Federal Reserve e do apetite global por risco.