Por que o dólar caiu ao menor nível em quatro anos, pode perder ainda mais e o que isso significa para preços, inflação, exportações, Trump, Fed e investidores
O dólar recuou com incertezas sobre as políticas de Trump, expectativas de juros mais baixos no Fed e saída de capitais, pressionando euro, libra e moedas emergentes
Nas últimas semanas, o dólar atingiu seu ponto mais baixo em quatro anos frente a uma cesta de moedas, e recuou fortemente frente ao euro e à libra.
A queda acelerou em janeiro, chegando a uma perda de 3% em cerca de uma semana, e reacendeu dúvidas sobre se a moeda pode desvalorizar ainda mais ao longo de 2026.
As informações a seguir compilam explicações de analistas, dados de mercado e declarações públicas sobre causas e possíveis desdobramentos, conforme informação divulgada pelo g1
O que aconteceu com o dólar
O dólar vinha em tendência de enfraquecimento depois de um ciclo de valorização entre 2020 e 2022, impulsionado por juros mais altos nos Estados Unidos e crescimento pós pandemia.
No ano passado, o índice do dólar, que mede sua cotação ante uma cesta de moedas, caiu em quase 10%, o pior desempenho desde 2017, segundo os dados reportados.
Em 27 de janeiro, a moeda voltou a mínimos de quatro anos, e em alguns pares acumulou a maior baixa em muitos anos, com quedas rápidas e consideráveis em poucas sessões.
Por que o dólar está caindo
Analistas apontam múltiplos fatores, entre eles reações do mercado às políticas do governo do presidente Donald Trump, e sinais de que o Federal Reserve pode reduzir juros no futuro.
Robin Brooks, do Instituto Brookings, afirma, traduzido, que, “Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações”.
Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do grupo ING, disse que “A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano”.
Outros elementos citados incluem tensões comerciais recentes, movimentos de venda no mercado japonês de títulos e maior atratividade relativa de investimentos fora dos Estados Unidos.
Impactos imediatos e riscos de inflação
Um dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos em viagens e compras internacionais e tende a elevar o preço de produtos importados dentro dos EUA, podendo alimentar pressões inflacionárias domésticas.
Embora, no curto prazo, a queda tenha sido caracterizada como ruído por alguns economistas, há o risco de que uma desvalorização sustentada aumente os custos de bens importados e pressione a inflação interna.
Também houve reação em mercados de proteção, o que ajudou a impulsionar ativos como o ouro, cuja cotação dobrou no ano anterior, enquanto investidores buscam refúgio.
Para onde vai o dinheiro e previsões
Parte dos fluxos saiu do mercado do dólar e encontrou destino em ouro, ações e em moedas estrangeiras, com o euro e a libra se valorizando em janeiro, e 11 entre 19 moedas de mercados emergentes acompanhadas por Oxford Economics avançando mais de 1%.
Investidores institucionais na Europa reduziram posições em títulos do tesouro americano, mas o movimento ainda não indica uma retirada ampla de ativos dos EUA, segundo analistas.
O ING projeta que o dólar pode cair mais 4% a 5% este ano, à medida que aumentam as perspectivas de crescimento fora dos Estados Unidos, comentou Chris Turner.
O papel do governo americano e possíveis ações
Declarações públicas e ações do governo também influenciam a trajetória da moeda. Comentários do secretário do Tesouro sobre intervenções foram usados para tentar estabilizar o câmbio, mas incertezas persistem sobre medidas futuras.
O presidente Donald Trump já disse que vê vantagem em um dólar mais fraco, afirmando que, “Não parece bom, mas você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco, do que com um dólar forte”.
Em paralelo, a nomeação do economista Kevin Warsh para o Fed, anunciada em 30 de janeiro, e elogiada por Trump com as palavras, “Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Ele é perfeito para o papel e nunca decepciona”, pode influenciar expectativas sobre a direção da política monetária.
Se o Fed reduzir juros com maior rapidez, o efeito tende a pressionar ainda mais o dólar, pois investidores buscariam retornos mais altos em outros mercados.
Por outro lado, se a queda atual for interpretada pelo mercado como consequência de políticas consideradas danosas para a economia americana, os efeitos podem ser mais amplos e representar um alerta sobre a confiança na economia dos EUA, segundo economistas citados.
Em suma, o dólar enfrenta hoje um mix de fatores domésticos e externos, e embora parte dos efeitos atuais seja apontada como temporária, há cenários plausíveis para nova depreciação, com impactos diferentes para consumidores, empresas e mercados globais.