Por que o imposto sobre bilionários na Califórnia, de 5% sobre fortunas a partir de US$ 1 bilhão, provocou êxodo de executivos, doações contra a medida e racha no Partido Democrata

Proposta de imposto sobre bilionários na Califórnia prevê alíquota progressiva até 5%, taxa única e retroativa, e já provoca saída de nomes do Vale do Silício e reação política intensa

A proposta de criar um imposto sobre bilionários na Califórnia desencadeou em dezembro de 2025 uma movimentação incomum entre os mais ricos que vivem no Estado, incluindo anúncios de mudanças de base e transferência de ativos.

Entre as justificativas, os autores afirmam que a medida visa compensar cortes federais na saúde e gerar recursos para serviços públicos essenciais, enquanto opositores alertam para riscos à inovação e ao emprego.

O debate expõe divisões dentro do Partido Democrata e prepara terreno para uma campanha acirrada até a possível votação em novembro deste ano, em consulta popular, conforme informação divulgada pelo g1.

Detalhes da proposta e regras chave

A iniciativa, apresentada pelo sindicato SEIU-UHW, prevê tributar residentes do Estado com fortunas a partir de US$ 1 bilhão, com alíquota que aumenta de forma progressiva e linear, partindo de 0% até chegar a 5% para aqueles com US$ 1,1 bilhão ou mais.

Na prática, quase todos os afetados pagariam 5%, porque, segundo a proposta citando a lista da Revista Forbes, apenas um entre os 204 bilionários da Califórnia tem fortuna abaixo de US$ 1,1 bilhão.

O imposto seria pago uma única vez, com possibilidade de parcelamento em cinco anos, em parcelas de 1% acrescidas de “uma pequena taxa”, e teria aplicação retroativa para bilionários residentes em 1º de janeiro de 2026.

Estimativa de receitas e destino dos recursos

Os autores projetam que a medida poderia arrecadar cerca de US$ 100 bilhões ao longo de cinco anos, sendo US$ 20 bilhões por ano, de 2027 a 2031.

Pela proposta, 90% da receita seria investida em saúde, e o restante em assistência alimentar e educação, objetivo que os idealizadores dizem ser necessário para mitigar os efeitos dos cortes federais no setor.

Como justificativa, os responsáveis pela proposta afirmam que “Novas receitas são necessárias para atenuar o impacto desses danos“, citando risco de fechamento de hospitais e perda de cobertura para moradores.

Reação do Vale do Silício, doações e ameaças de saída

A possibilidade do imposto sobre bilionários na Califórnia gerou reações públicas de investidores e fundadores. Em post na rede social X, David Sacks escreveu inicialmente “Mensagem recebida” ao comentar protestos contra bilionários em San Francisco, e depois anunciou que a Craft Ventures abriu um escritório em Austin, com a frase “Tenho o prazer de encerrar o ano anunciando que a Craft Ventures [empresa de capital de risco da qual é fundador] abriu um escritório em Austin [no Texas]. Que Deus abençoe o Texas e feliz ano novo!”.

Peter Thiel anunciou abertura de escritório em Miami, e informou doação de US$ 3 milhões para campanha contra a medida, segundo a imprensa. Houveram relatos de que Sergey Brin e Larry Page transferiram ativos para fora do Estado antes do Natal.

Do outro lado, líderes como Jensen Huang, CEO da Nvidia, e Brian Chesky, fundador do Airbnb, descartaram planos de sair da Califórnia, enquanto críticos como Chamath Palihapitiya afirmaram que a medida poderia levar o Estado à falência.

Política, análises fiscais e riscos jurídicos

O governador democrata Gavin Newsom prometeu lutar para impedir a inclusão da proposta nas cédulas, e argumenta que a mera introdução do debate já teria levado bilionários a se mudar, “levando seus dólares de impostos com eles”, segundo entrevista citada por veículos americanos.

O mecanismo para levar a proposta a voto envolve a coleta de 875 mil assinaturas. Se chegar às urnas, são esperadas campanhas intensas de ambos os lados, e especialistas preveem que, mesmo se aprovada, a medida será contestada judicialmente.

O órgão técnico da Assembleia Legislativa da Califórnia e o Departamento de Finanças estimaram que o novo imposto resultaria em dezenas de bilhões de dólares em receitas extraordinárias, porém também projetaram perdas por saída de alguns contribuintes.

Os idealizadores rebatem que o êxodo será limitado. Brian Galle, um dos autores, observa que “Minha opinião é a de que falar é fácil”, e lembra que estabelecer domicílio fiscal fora da Califórnia é um processo complexo que avalia vínculos pessoais e comerciais.

Os defensores da proposta também citam estudos que indicam que, entre 2018 e 2020, os mais ricos pagaram menos em impostos proporcionais, e que tributar riqueza, além de renda, pode corrigir desequilíbrios, já que a maior parte da fortuna dos bilionários está em ativos não realizados.

Com a eleição legislativa e a possível consulta popular previstas para novembro, o debate sobre o imposto sobre bilionários na Califórnia deve permanecer no centro das atenções, entre mobilizações, doações milionárias e incertezas legais e econômicas.