Por que o México foi maior beneficiado pelas tarifas de Trump: T-MEC, aumento de 5,66% nas exportações e o teste decisivo da renegociação
Entenda por que as tarifas de Trump elevaram as exportações mexicanas, como o T-MEC atuou como proteção, e qual é o risco na renegociação marcada para este ano
O México viu suas exportações para os Estados Unidos crescerem depois do anúncio das novas tarifas, em um cenário global que se reconfigura, com empresas buscando rotas com menor custo tarifário.
Setores industriais, investidores e governos reagiram às medidas, deslocando fluxos comerciais e acelerando estratégias como o nearshoring, com impacto direto nas cadeias produtivas entre México e EUA.
Nos próximos meses, a validade desse ganho vai depender da negociação do T-MEC e de decisões políticas em Washington, que podem manter ou reverter as vantagens conquistadas pelo México.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que o México ganhou vantagem com as tarifas de Trump
Uma combinação de fatores tornou o México menos afetado pelas novas tarifas de Trump, entre eles a isenção concedida a produtos que atendem às regras do T-MEC, a proximidade geográfica com os EUA e uma indústria já integrada às cadeias americanas.
Erica York, analista do Centro de Política Federal de Impostos do Tax Foundation, destacou que, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC“. Essa isenção incentivou empresas a certificarem suas exportações sob o acordo, reduzindo custos.
O especialista Mario Campa, da Universidade Columbia, explicou que “Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota“, o que favoreceu o México no curto prazo.
Números que mostram a mudança nos fluxos comerciais
Dados compilados mostram que, desde o anúncio das tarifas, o México conseguiu registrar um crescimento de 5,66% nas suas exportações para os Estados Unidos, segundo estatísticas oficiais mexicanas atualizadas até novembro de 2025.
O Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) indicou que os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6% em outubro de 2025, enquanto o Canadá ficou com 3,9%. Em contraste, a tarifa efetiva para produtos chineses atingiu 37,1% no mesmo período.
Para o restante do mundo, a tarifa efetiva média subiu para 10,91% em outubro, ante 2,2% em janeiro de 2025, antes do início do segundo mandato de Donald Trump, o que explica a migração de importações para países com alíquotas menores.
Nem todos os setores brasileiros, nem todos os setores mexicanos, se beneficiaram igualmente, o que fica claro no setor automotivo mexicano, que cresceu apenas 0,9% em 2025, e em segmentos como aço e alumínio, que sofreram com tarifas de 25%.
O papel do T-MEC na reconfiguração comercial
Antes das medidas tarifárias, muitas empresas preferiam evitar os trâmites do T-MEC e pagar tarifas, que eram baixas, em vez de cumprir as regras de origem. O anúncio das tarifas mudou essa equação.
Em 2024, cerca de 38% das importações americanas do Canadá e 49% das do México eram realizadas sob o T-MEC. Nos meses seguintes ao anúncio, esses percentuais, segundo York, aumentaram para cerca de 86% a 87%, mostrando uma rápida adaptação ao novo ambiente tarifário.
Campa acrescentou que, com o esgotamento de estoques comprados antes das tarifas, “Quando esses fluxos de compras antecipadas começaram a se normalizar, pelo término dos estoques, começaram a se destacar os produtos fabricados no México, que provavelmente está se tornando um parceiro comercial [americano] mais importante do que a China ou o Canadá“.
“Ou seja, o México está se consolidando no primeiro lugar entre as importações americanas“, afirmou Campa, ressaltando que o padrão pode ser tanto temporário quanto o início de uma nova configuração comercial.
O teste decisivo: renegociação do T-MEC e riscos à frente
A maior incerteza agora é política, com a renegociação do T-MEC prevista para este ano e declarações públicas de Donald Trump que colocam o acordo em dúvida. Em 13 de janeiro, Trump afirmou, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos“.
Em visita a uma fábrica da Ford, o presidente americano também declarou, “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui“, e ainda, “E é isso o que está acontecendo, todos estão se mudando para cá, do Canadá, México, Japão, Alemanha, de todo o mundo“.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, reagiu afirmando estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar”. Ainda assim, a possibilidade de o T-MEC perder força ou ser reescrito cria cenários que vão de manutenção do acordo até sua desintegração, com impactos distintos em setores e regiões.
Campa alerta para alternativas, observando que o México precisa preparar planos B ou C, citando o “Plano México” lançado pela presidente Sheinbaum no início de 2025, para diversificar destinos e reduzir dependência excessiva dos EUA.
Para analistas, o resultado da renegociação será o maior teste para validar se o ganho observado é duradouro, ou se o México terá de acelerar reformas e estratégia externa para manter seu papel na cadeia produtiva norte-americana.
Em um cenário de tarifas erráticas e incertezas políticas, a trajetória das exportações mexicanas e a sorte do T-MEC vão depender tanto de negociações diplomáticas quanto de decisões empresariais sobre investimentos e realocação de produção.