Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump, como o T-MEC ampliou exportações e qual é o teste decisivo na renegociação

Tarifas de Trump favoreceram o México por causa das isenções do T-MEC e do nearshoring, elevando exportações, mas a renegociação será o teste decisivo para manter a vantagem

O México conseguiu transformar a forte política tarifária adotada pelo governo Trump em uma vantagem comercial, com empresas redirecionando cadeias de produção e exportações para solo mexicano.

Essa reação combinou a isenção parcial do T-MEC, mudanças logísticas das empresas e a busca por menores alíquotas efetivas, resultando em um crescimento real nas vendas ao mercado americano.

Os dados e análises que explicam esse movimento e os riscos que o México enfrenta estão detalhados a seguir, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o México saiu na frente

A exclusão inicial do México da lista ampla de alvos das tarifas anunciadas no chamado “Dia da Libertação” abriu uma janela de oportunidade. Além disso, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”, afirmou Erica York, analista da Tax Foundation, e isso alterou incentivos para exportadores.

Com tarifas elevadas contra muitos países, compradores e empresas nos Estados Unidos passaram a privilegiar fornecedores com menor alíquota efetiva. Mario Campa, especialista em política econômica, resumiu essa lógica, dizendo, “Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota”.

Esses fatores, juntos com a proximidade geográfica e uma base industrial consolidada, fizeram com que multinacionais e cadeias de suprimentos optassem por produzir ou ampliar operações no México, processo conhecido como nearshoring.

Os números que mostram o ganho

O efeito das medidas aparece nos dados de 2025. Segundo avaliação do Modelo de Orçamento Penn Wharton, os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6% em outubro de 2025, enquanto o Canadá registrou 3,9%.

O México registrou um crescimento de 5,66% nas exportações para os Estados Unidos em 2025, e teve seis meses consecutivos de elevação após o anúncio de abril, de acordo com números oficiais mexicanos atualizados até novembro de 2025.

Em contraste, produtos chineses sofreram forte impacto, com tarifa efetiva de 37,1% em 2025, e a tarifa média para o restante do mundo subiu para 10,91% em outubro, ante 2,2% em janeiro de 2025, segundo o mesmo modelo.

Nem todos os setores do México cresceram igualmente, contudo. O setor automotivo teve aumento de apenas 0,9% em 2025, e ramos como aço e alumínio, sujeitos a tarifas de 25%, registraram queda nas exportações para os EUA.

Como o T-MEC protegeu e reconfigurou exportações

Antes das tarifas, muitos exportadores mexicanos preferiam pagar tarifas baixas a cumprir as exigências do T-MEC, por burocracia. Com o aumento das alíquotas, isso mudou.

Erica York apontou que, em 2024, cerca de 49% das importações americanas vindas do México eram pelo acordo, percentual que saltou para cerca de 86% a 87% nos meses seguintes à implementação das tarifas, mostrando uma adesão rápida às regras do T-MEC.

O resultado foi que empresas que já tinham capacidade produtiva no México passaram a conquistar fatias do mercado americano à medida que estoques pré-contratados se esgotaram, impulsionando o país, segundo Campa, a uma posição de destaque, “Ou seja, o México está se consolidando no primeiro lugar entre as importações americanas”.

O teste decisivo na renegociação do T-MEC

Apesar dos ganhos, o futuro não está garantido. O próprio presidente Trump declarou, em 13 de janeiro, que o T-MEC lhe parece “irrelevante”, e afirmou, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos”, e ainda, “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui”.

O tom presidencial elevou a incerteza antes da renegociação prevista para este ano. As negociações podem resultar em renovação do acordo, em ajustes que protejam exportações americanas, em um cenário intermediário, ou até na ausência de um novo acordo, o que seria uma catástrofe para muitos exportadores mexicanos, segundo Mario Campa.

Além disso, acordos paralelos, como a aproximação entre o Canadá e a China, complicam a dinâmica regional e podem reduzir a coordenação entre os parceiros do T-MEC, observou Campa, chamando isso de um “mau sinal” para a sobrevivência do bloco.

Diante desse risco, o México tem caminhos a considerar. O governo já anunciou o “Plano México” para diversificar mercados e reduzir dependência dos EUA, e especialistas defendem dar mais visibilidade a alternativas comerciais, sem abandonar a integração norte-americana.

Em suma, as tarifas de Trump criaram um desvio comercial que beneficiou o México em 2025, sustentado pelo T-MEC e pelo nearshoring, porém a manutenção dessa vantagem vai depender do resultado da renegociação e da capacidade mexicana de diversificar parceiros e atração de investimentos.