Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump, como o T-MEC blindou exportações e qual é o teste decisivo em 2026

Como a isenção para produtos do T-MEC, a geografia e o nearshoring fizeram o México ganhar espaço nas importações dos EUA, e por que a renovação do tratado será um momento-chave em 2026

O anúncio das novas tarifas americanas em abril de 2025, chamado por Donald Trump de “Dia da Libertação”, redesenhou fluxos comerciais globais e abriu uma janela de oportunidade para o México.

Com benefícios específicos para mercadorias que cumprem as regras do T-MEC, empresas e investidores realocaram compras e cadeias produtivas para evitar tarifas mais altas, favorecendo fábricas mexicanas próximas ao mercado americano.

Os impactos e os números desse movimento já foram registrados nos dados de comércio internacional, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o México ganhou com as tarifas de Trump

Uma parte central da explicação é a isenção concedida pelo governo americano para produtos que atendem às exigências do T-MEC. “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”, afirmou Erica York, analista do Centro de Política Federal de Impostos do Tax Foundation, à BBC News Mundo.

Essa exceção tornou vantajoso que exportadores passassem a operar sob as regras do tratado, em vez de continuar pagando tarifas baixas para evitar burocracia. Segundo York, “observamos que as transações realizadas no âmbito do T-MEC dispararam em 2025, devido a essa isenção”.

O especialista Mario Campa, da Universidade Columbia, explica o raciocínio do comprador americano, “Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota”. Essa busca por menor custo e menor risco logístico favoreceu o México, com indústria já consolidada e proximidade geográfica.

Números que mostram a vantagem, e onde houve exceções

O Modelo de Orçamento Penn Wharton, da Universidade da Pensilvânia, indicou que os produtos mexicanos pagaram uma **tarifa de importação efetiva de 4,6% em outubro de 2025**. Para efeito de comparação, o Canadá apresentou **3,9%**, e a China sofreu uma tarifa efetiva de **37,1%** no mesmo período.

O aumento das exportações mexicanas para os EUA ficou em torno de **5,66%** em 2025, segundo dados citados pela reportagem, e o México registrou seis meses consecutivos de crescimento após o anúncio de abril. Esses números ajudam a explicar por que o país foi apontado como um dos “ganhadores inesperados” da política tarifária americana.

Nem todos os setores, porém, se beneficiaram da mesma forma. O setor automotivo teve um avanço modesto, com aumento de apenas **0,9%** em 2025, mesmo após negociações que limitaram as tarifas a componentes fora do T-MEC. Já segmentos como aço e alumínio sofreram com tarifas de **25%** e registraram queda nas exportações para os EUA.

Além disso, o estudo aponta que a tarifa efetiva média para o restante do mundo saltou para **10,91%** em outubro, ante **2,2%** registrados em janeiro de 2025, antes do início do segundo mandato de Donald Trump. Essas diferenças criaram desalinhamentos e desvio de comércio em favor de fornecedores com menor alíquota efetiva.

O teste decisivo: a renegociação do T-MEC em 2026

A grande incógnita agora é a renegociação do T-MEC prevista para 2026. Com declarações públicas que lançaram dúvidas sobre o futuro do acordo, o presidente americano voltou a alimentar incertezas sobre a continuidade do tratado.

Em 13 de janeiro, Trump disse, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos”, e, ao falar da indústria automobilística, afirmou, “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui.”

A reação mexicana foi imediata, a presidente Claudia Sheinbaum declarou estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar”. Analistas apontam, porém, que a retórica presidencial e sinais como novos acordos do Canadá com outros mercados complicam o tabuleiro das negociações.

Mario Campa ressalta cenários que vão de renovação do acordo ao estado atual, até a desintegração do bloco, e avalia que “podem ocorrer diversos cenários durante as negociações do T-MEC este ano”. Ele alerta que o avanço do Canadá nas negociações com a China pode ser um mau sinal para a sobrevivência do T-MEC.

O que o México precisa fazer para não perder o avanço

Para manter o ganho conquistado com as tarifas de Trump, o México terá de preparar alternativas, diversificar mercados e dar visibilidade a planos como o chamado “Plano México” anunciado pela presidente Sheinbaum no início de 2025.

Campa sugere que o país desenvolva planos B e C para reduzir dependência excessiva dos EUA, observando que “é uma aposta ousada e o México não é o Canadá, mas se trata de um caminho que, sem dúvida, precisa ser explorado”.

Em suma, a atual vantagem do México veio da combinação entre T-MEC, realocação industrial e tarifas direcionadas dos EUA, mas a renovação do tratado em 2026 será o momento decisivo para consolidar ou reverter essa posição.