Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump, como o T-MEC blindou exportações mexicanas e qual é o teste decisivo em 2026
As isenções do T-MEC, a realocação de cadeias produtivas e o efeito imediato nas vendas ao mercado americano explicam o ganho do México com as tarifas de Trump, enquanto a renegociação do tratado será o momento de verdade
O México conseguiu não só manter, como aumentar suas exportações para os Estados Unidos após as novas medidas tarifárias anunciadas por Donald Trump, em 2 de abril de 2025, data que o presidente chamou de “Dia da Libertação”.
Vários fatores convergiram para esse resultado, entre eles a isenção aplicada a bens que cumprem as regras do T-MEC, a proximidade geográfica e o movimento de fabricantes internacionais para o território mexicano.
Essas análises e números constam na cobertura sobre o tema, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que o México ganhou com as tarifas de Trump
A decisão da Casa Branca de excluir inicialmente México e Canadá da lista geral de tarifas, e de conceder depois isenções para produtos que obedecem às regras do T-MEC, tornou o México uma alternativa mais barata e segura para compradores americanos.
Como explica a analista Erica York, do centro de estudos Tax Foundation, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”. A proteção do tratado, portanto, estimulou exportadores a certificarem suas cadeias para aproveitar a isenção.
O especialista Mario Campa, da Universidade Columbia, afirma que, diante do aumento tarifário global, compradores e empresas americanas “irão se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota”, ressaltando a vantagem mexicana para capturar demanda que antes vinha de outros mercados.
Números que mostram o impacto comercial
Os indicadores compilados por instituições e governos confirmam o movimento. Segundo levantamento citado, o México registrou um crescimento geral de 5,66% em suas exportações para os Estados Unidos em 2025, e apresentou seis meses de crescimento contínuo após o anúncio de abril.
O Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) apontou que, em outubro de 2025, os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6%, enquanto o Canadá teve 3,9%. Em contraste, a tarifa efetiva para os produtos chineses atingiu 37,1% no ano passado.
Para o resto do mundo, a tarifa efetiva média foi de 10,91% em outubro, contra 2,2% em janeiro de 2025, antes do início do segundo mandato de Trump. Ainda segundo dados citados, as exportações canadenses para os EUA caíram 6,19%, enquanto o setor automobilístico mexicano subiu apenas 0,9% em 2025.
O levantamento também aponta que, em 2024, cerca de 38% das importações americanas vindas do Canadá e 49% das vindas do México foram realizadas no âmbito do acordo, percentuais que, nos meses seguintes, chegaram a 86% a 87% dos produtos, indicando uma rápida adoção do T-MEC como mecanismo para escapar das tarifas.
Nem todos os setores, no entanto, foram beneficiados, já que produtos como aço e alumínio sofreram tarifas de 25% e registraram queda das exportações mexicanas para os EUA.
O teste decisivo: a renegociação do T-MEC e os riscos para o México
A maior incerteza para a continuidade desse ciclo favorável ao México é a renegociação do T-MEC, prevista para este ano, e as declarações públicas do próprio presidente americano. Em 13 de janeiro, Trump afirmou, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos”, e, em seguida, “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui”.
A reação mexicana foi imediata, com a presidente Claudia Sheinbaum dizendo estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar” e lembrando a profunda integração industrial entre os países.
Os cenários para as negociações variam desde a renovação do acordo como está, até a sua desintegração, passando por opções intermediárias que podem premiar ou prejudicar diferentes setores, como observa Mario Campa. Para ele, movimentos paralelos, como a aproximação do Canadá com a China, são sinais de alerta que podem influenciar a barganha.
Se o pior cenário se concretizar, especialistas afirmam que o México precisará acelerar planos de diversificação comercial, como o chamado “Plano México” citado pela presidente Sheinbaum, para reduzir dependência dos Estados Unidos e abrir novas rotas de exportação.
O que acompanhar nos próximos meses
O avanço do México em 2025 foi impulsionado por uma combinação de T-MEC, realocação industrial e escolhas de compradores americanos diante das tarifas de Trump, mas a sustentabilidade dessa vantagem dependerá do resultado das negociações do tratado.
Empresas, investidores e governos devem acompanhar três pontos-chave, o conteúdo final da renegociação do T-MEC, eventuais novas declarações e medidas tarifárias da administração americana, e a velocidade com que o México conseguir diversificar mercados e agregar valor às suas exportações.
Sem um acordo estável, o que hoje aparece como vantagem momentânea pode se transformar em vulnerabilidade, e o México terá de mostrar capacidade de adaptação para manter sua posição como principal fornecedor dos Estados Unidos.