Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump, como o T-MEC blindou exportações mexicanas e qual é o teste decisivo nas negociações
Como a isenção via T-MEC, a realocação de cadeias produtivas e a proximidade geográfica fizeram o México crescer nas exportações aos EUA, e por que as negociações deste ano serão decisivas
Em 2025, o México conseguiu aumentar suas exportações para os Estados Unidos em meio à forte política tarifária do governo Trump.
Setores integrados ao acordo comercial T-MEC e a mudança de compras de empresas americanas explicam parte do ganho, enquanto outros segmentos sofreram com tarifas específicas.
As informações a seguir apresentam dados e análises sobre esse cenário, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o T-MEC serviu de proteção
Uma das causas centrais do avanço mexicano foi a isenção concedida a produtos que atendem às exigências do T-MEC. Segundo a analista Erica York, do centro de estudos Tax Foundation, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”.
Esse tratamento fez com que muitos exportadores passassem a operar pelo acordo, em vez de optar por pagar tarifas menores e evitar burocracia. Em 2024, cerca de 49% das importações americanas procedentes do México foram realizadas no âmbito do tratado, e nos meses seguintes esse percentual subiu para cerca de 86% a 87%, segundo York.
Números, vencedores e perdedores
O Modelo de Orçamento Penn Wharton, da Universidade da Pensilvânia, indicou tarifa de importação efetiva de 4,6% para produtos mexicanos em outubro de 2025, contra 3,9% no Canadá.
Os dados oficiais apontam que o México registrou crescimento de 5,66% nas exportações para os Estados Unidos em 2025, com seis meses consecutivos de alta após o anúncio das tarifas de abril.
Em contraste, produtos chineses sofreram majoritariamente, com tarifa efetiva média de 37,1% em 2025, e a média do resto do mundo subiu para 10,91% em outubro, ante 2,2% em janeiro de 2025, segundo o PWBM.
Apesar do avanço geral, nem todos os setores mexicanos se beneficiaram. O setor automotivo cresceu apenas 0,9% em 2025, e segmentos como aço e alumínio, sujeitos a sobretaxas de 25%, registraram queda nas exportações.
Por que o México virou alternativa à China
Parte do movimento vem do fim de estoques comprados antes das tarifas. À medida que pedidos antigos foram se esgotando, empresas passaram a privilegiar fornecedores mais próximos e integrados às cadeias americanas, beneficiando o México.
O especialista Mario Campa, da Universidade Columbia, explica que, com aumentos tarifários globais, compradores nos EUA tendem a procurar o parceiro com a menor alíquota, e o México acabou consolidando-se como alternativa competitiva à China e, em alguns casos, ao Canadá.
O teste decisivo nas negociações do T-MEC e os riscos à frente
O futuro desse ganho depende das negociações do T-MEC previstas para este ano. Em 13 de janeiro, o presidente Trump afirmou que o tratado lhe parece “irrelevante”, e declarou que “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui.”
A resposta mexicana foi rápida, a presidente Claudia Sheinbaum disse estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar”. Ao mesmo tempo, movimentos de outros parceiros, como a aproximação entre Canadá e China, complicam o quadro regional.
Para Mario Campa, as negociações podem resultar em renovação do acordo, um cenário intermediário, ou até a desintegração do bloco, o que seria uma catástrofe para o México. Ele recomenda que o país desenvolva planos alternativos para diversificar comércio, citando o “Plano México” anunciado pela presidente Sheinbaum.
O que o México precisa fazer agora
Especialistas sugerem que o México não dependa apenas do ambiente protegido pelo T-MEC, mas amplie esforços para diversificar mercados, fortalecer a atratividade para investimentos e melhorar a produção nos setores mais atingidos.
Políticas públicas que reduzam custos de conformidade e incentivem maior participação no T-MEC, juntamente com iniciativas para acessar outros mercados, aparecem como caminhos para mitigar riscos caso o tratado seja renegociado de forma menos favorável.
Em síntese, a vantagem mexicana diante das tarifas de Trump foi real e mensurável, mas não é irreversível, e as negociações do T-MEC serão o grande teste para transformar ganhos momentâneos em vantagem duradoura.