Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump, por que o T-MEC impulsionou exportações e qual é o teste decisivo que vem nas negociações

Com exceção do Canadá, o México virou destino preferencial para empresas que querem evitar tarifas de Trump, mas a renegociação do T-MEC será a prova decisiva para consolidar ou reverter esse ganho

O México conseguiu aumentar suas exportações para os Estados Unidos em 2025, apesar da forte política tarifária do governo Trump, e se tornou um dos ganhadores inesperados do novo regime de tarifas.

Empresas e investidores reajustaram cadeias produtivas para aproveitar a isenção reservada a produtos que cumprem as regras do T-MEC, e a mudança já aparece em números oficiais.

Os dados e as análises a seguir foram organizados com base em informações divulgadas pelo g1

Por que as tarifas de Trump beneficiaram o México

Uma razão central é a exceção concedida a produtos que atendem às regras do T-MEC, conforme destacou a analista Erica York, do Tax Foundation, ao afirmar, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC“.

York acrescentou que “Observamos que as transações realizadas no âmbito do T-MEC dispararam em 2025, devido a essa isenção“, o que explica parte do redirecionamento de faturamento para fabricantes instalados no México.

Além disso, o Modelo de Orçamento Penn Wharton, da Universidade da Pensilvânia, indicou que a tarifa de importação efetiva para produtos mexicanos era de 4,6% em outubro de 2025, contra 3,9% para o Canadá, e 37,1% para a China.

Os números que mostram o impacto, ganhos e perdas

Segundo dados citados pelo g1, as exportações mexicanas para os EUA cresceram 5,66% em 2025, enquanto as exportações canadenses caíram 6,19% em relação a 2024.

O levantamento também aponta que a tarifa efetiva média para o resto do mundo subiu para 10,91% em outubro, frente a 2,2% em janeiro de 2025, antes do segundo mandato de Donald Trump.

Nem todos os setores mexicanos se beneficiaram igualmente, o setor automotivo aumentou apenas 0,9% em 2025, e produtos como aço e alumínio sofreram com tarifas de 25%, registrando queda de exportações para os Estados Unidos.

O papel do nearshoring e a realocação de fornecedores

Especialistas apontam que o fenômeno é composto, além da proteção do T-MEC, pela fome das empresas americanas por cadeias de suprimentos menos expostas a tarifas altas e a custos logísticos maiores.

Mario Campa, economista da Universidade Columbia, explicou que “Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota“, o que favoreceu o México.

A migração de linhas de produção, e o esgotamento de estoques contratuais de fornecedores asiáticos, permitiu que fábricas mexicanas ganhassem espaço nas prateleiras e contratos americanos.

O teste decisivo nas renegociações do T-MEC e os cenários para o México

O futuro desse ganho depende de negociações marcadas para 2026 sobre o próprio T-MEC, em um momento de grande incerteza política e dizimação de alianças comerciais.

Donald Trump chegou a afirmar, em 13 de janeiro, que “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos“, e que “Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui“.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, respondeu afirmando estar “certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar“, mas o clima político aumentou o risco de um cenário adverso.

Mario Campa advertiu que as negociações podem gerar resultados desde a renovação do acordo como está, até a desintegração do bloco, e que o México precisa preparar alternativas para não depender exclusivamente do mercado americano.

Uma estratégia citada é a diversificação de parceiros e a aplicação de planos internos, como o “Plano México” anunciado pela presidente Sheinbaum, para reduzir vulnerabilidades diante de mudanças bruscas nas tarifas.

O que vigiar agora

Nos próximos meses será fundamental acompanhar o avanço das negociações do T-MEC, sinais de mudanças nas tarifas setoriais, e acordos bilaterais que o Canadá e outros parceiros possam fechar, como elemento de pressão nas mesas de negociação.

Se as vantagens concedidas pelo atual regime tarifário se mantiverem, o México tem chance de consolidar o papel de principal fornecedor dos EUA, caso contrário, terá de acelerar alternativas de diversificação comercial.