Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump: T-MEC, nearshoring e o teste decisivo da renegociação que pode mudar tudo

Como o T-MEC, a isenção para produtos certificados e a realocação de fábricas transformaram o México em destino preferencial para exportações aos EUA, diante das novas tarifas de Trump

Em 2025, o México conseguiu não apenas manter, como aumentar suas exportações para os Estados Unidos, apesar da ampla onda de tarifas anunciada por Donald Trump.

Vários especialistas apontam que a combinação entre a isenção do T-MEC e o efeito do nearshoring tornou o país um dos principais “ganhadores inesperados” do período.

Os dados e análises a seguir foram reunidos com base em levantamento do g1 e nas fontes citadas ao longo do texto, conforme informação divulgada pelo g1

Por que o México sofreu menos com as tarifas

Uma razão central para o avanço mexicano foi a isenção das medidas para produtos que cumprem as regras do T-MEC, conforme afirmou Erica York, analista do Tax Foundation, ao serviço em espanhol da BBC.

York disse, “Uma das maiores isenções às tarifas do ‘Dia da Libertação’ do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC”.

Segundo a análise do Modelo de Orçamento Penn Wharton, os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6% em outubro de 2025, um nível bem abaixo da média global sob o novo regime tarifário.

Os números que explicam o salto nas exportações

Os números oficiais mostram que as exportações mexicanas para os EUA cresceram 5,66% em 2025, segundo dados citados pela reportagem do g1, com seis meses consecutivos de alta após o anúncio de abril.

Para comparação, o Canadá apresentou tarifa efetiva de 3,9%, mas registrou queda de 6,19% no volume de exportações para os EUA em 2025, segundo o Departamento de Comércio americano.

Em contraste, os produtos chineses enfrentaram tarifa efetiva de 37,1% no ano, segundo o PWBM, e a tarifa média para o resto do mundo subiu para 10,91% em outubro, contra 2,2% em janeiro de 2025.

Especialistas destacam que, além da vantagem tarifária, a logística e a cadeia de suprimentos já instalada no México aceleraram a substituição de fornecedores asiáticos, à medida que estoques pré-contratados se esgotaram.

O economista Mario Campa, da Universidade Columbia, explicou, “Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota”.

Setores vencedores e perdedores

Embora o país tenha registrado crescimento geral, nem todos os setores foram igualmente beneficiados pelas tarifas de Trump.

O setor automotivo cresceu apenas 0,9% em 2025, um resultado abaixo do esperado, mesmo depois de negociações que limitaram a incidência de tarifas a componentes automotivos não fabricados nos EUA.

Já setores como aço e alumínio sofreram com tarifas de 25% e registraram queda nas vendas aos EUA.

Analistas ressaltam que muitos exportadores mexicanos que antes preferiam pagar tarifas baixas passaram a cumprir as normas do T-MEC, porque isso se tornou mais vantajoso diante do novo cenário tarifário.

O teste decisivo pela frente, a renegociação do T-MEC

O principal risco para a continuidade desse cenário favorável é a renegociação do T-MEC, prevista para este ano, e as declarações públicas do presidente Trump aumentaram a incerteza.

No dia 13 de janeiro, Trump afirmou, “Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos”.

A declaração elevou a tensão política, e a resposta da presidente mexicana Claudia Sheinbaum apontou que o México espera manter a relação comercial com os EUA, destacando a integração industrial existente entre os países.

Segundo Mario Campa, os cenários na renegociação vão do melhor, com renovação do acordo, até o pior, com possível desintegração. Campa alerta que o Canadá já busca alternativas, como acordos com a China, o que pode enfraquecer a coordenação regional.

Para se preparar, o México anunciou iniciativas internas de diversificação, como o “Plano México”, e especialistas sugerem que o país precisa dar visibilidade a planos alternativos, caso o T-MEC perca força.

O que vem a seguir

O resultado da renegociação será o fator decisivo para saber se o ganho observado em 2025 é duradouro ou apenas um efeito momentâneo das tarifas de Trump e do movimento de realocação industrial.

Enquanto isso, empresas e investidores já vêm apostando no México como destino competitivo para exportar aos EUA, por causa da combinação entre proximidade geográfica, mão de obra qualificada e tratamento preferencial pelo T-MEC.

Caberá às autoridades mexicanas e aos parceiros comerciais negociar medidas que preservem a produção integrada na América do Norte, ou então acelerar planos de diversificação para reduzir a dependência de um único mercado.