Por que o preço do petróleo não dispara com ameaças de Trump ao Irã e à Venezuela, e como a projeção de US$ 60 a US$ 65 em 2026 influencia a inflação e as contas do Brasil

Excesso de oferta global mantém o preço do petróleo sob controle, com efeitos na gasolina, nos royalties e nos dividendos da Petrobras, afirmam analistas

As recentes ameaças do presidente dos Estados Unidos a países produtores, como Irã e Venezuela, provocaram picos rápidos nos mercados, mas não alteraram as projeções de médio prazo para o preço do petróleo.

Analistas apontam que o cenário atual é de excesso de oferta entre os produtores, tendência que deve segurar os valores no mercado internacional e limitar impactos duradouros.

Dados e declarações reunidos mostram que a expectativa é de um barril entre US$ 60 e US$ 65 em 2026, e que essa faixa tem efeitos contraditórios para a economia brasileira, como queda da inflação, mas perda de arrecadação, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que as ameaças não dispararam o preço de forma sustentada

Movimentos geopolíticos de alto impacto, como ordens de ataque ou controle temporário das vendas de petróleo, provocam volatilidade, mas os efeitos tendem a ser de curta duração quando a oferta global é ampla.

Segundo Régis Cardoso, responsável pela cobertura de óleo e gás da XP, “O mercado tem uma expectativa de baixa para os preços do petróleo. Há um consenso de que os balanços de oferta e demanda para 2026 indicam excesso de oferta”.

O diretor-geral da ANP, Artur Watt, observou que “O preço do petróleo já vinha em trajetória de baixa. Mas é normal que as notícias tragam oscilações”, e que ainda não está claro se as incertezas vão afetar a oferta no futuro.

Exemplos recentes mostram esse vaivém, com o Brent subindo 1,6%, para US$ 61,76, após notícias sobre a Venezuela, e depois caindo 7%, para US$ 60,70, segundo a consultoria Elos Ayta. Em outro episódio, com ameaça ao Irã, o Brent subiu de US$ 63,87 para US$ 66,52, e voltou a recuar nos dias seguintes.

Riscos geopolíticos e limitações práticas

A proximidade do Irã ao Estreito de Ormuz é um fator que aumenta riscos para o tráfego marítimo, já que cerca de 20% do petróleo transportado por navio passa por ali, e o Irã é apontado entre os maiores produtores mundiais.

No caso da Venezuela, mesmo que os EUA passem a administrar vendas, especialistas dizem que seriam necessários investimentos bilionários para retomar produção em escala, e que o tipo de petróleo venezuelano, mais pesado, exige tecnologia e refinarias adequadas.

Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, afirmou, “Algumas refinarias conseguem processar, mas isso exige tecnologia e conhecimento técnico. E essa é uma capacidade que a Venezuela hoje não tem”.

Estudos do IBP indicam que seriam necessários cerca de dois anos para iniciar projetos de retomada da produção e pelo menos oito anos para recuperar níveis históricos, considerando que o país chegou a produzir mais de 3 milhões de barris por dia nos anos 1970.

Impacto para o Brasil, inflação e receitas públicas

Se o barril ficar entre US$ 60 e US$ 65 em 2026, o cenário traz dois efeitos principais para o Brasil. Primeiro, preços mais baixos ajudam a conter a inflação ao reduzir a pressão sobre gasolina e diesel, benefício imediato para o consumidor.

Por outro lado, a arrecadação do país pode ser afetada, pois royalties, participações especiais e os dividendos da Petrobras caem quando o preço do petróleo recua. Preços menores também podem reduzir projetos de exploração e investimentos no setor.

Sobre a gasolina, especialistas lembram que o preço final ao consumidor depende de vários fatores além do barril, incluindo impostos e a política de preços da Petrobras. A empresa anunciou uma redução de R$ 0,14 no preço médio da gasolina A no fim de janeiro, após três meses sem alterações, e informa que seus preços representam apenas um terço do valor final pago nos postos.

Perspectiva para 2026 e o que observar

Para 2026, a expectativa de mercado é de um balanço com excesso de oferta, o que deve manter o preço do petróleo relativamente estável na faixa projetada, limitando impactos permanentes de choques geopolíticos.

Os analistas recomendam acompanhar três pontos, que podem mudar esse cenário, caso se alterem de forma relevante, capacidade de reação das grandes petrolíferas, evolução das negociações entre EUA e Irã, e o real avanço de projetos na Venezuela.

Em resumo, as ameaças políticas provocam picos e medo temporário, mas, segundo analistas e autoridades citadas, a lógica de oferta e demanda permanece como força determinante para o preço do petróleo em 2026.