Por que o preço do petróleo não dispara mesmo com ameaças de Trump ao Irã e à Venezuela, excesso de oferta tende a manter barril entre US$ 60 e US$ 65 em 2026

Excesso de oferta entre produtores e avaliação de riscos já incorporada pelos investidores ajudam a conter oscilações no preço do petróleo, mantendo expectativas estáveis para 2026

O mercado de petróleo passou por picos de volatilidade nos últimos dias, com movimentos relacionados às ações e declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre Irã e Venezuela.

Mesmo assim, analistas e agentes do setor seguem projetando um preço do petróleo mais contido para 2026, diante de um balanço global que aponta excesso de oferta entre produtores.

Essas conclusões estão em linha com as informações levantadas pelo g1, que ouviu especialistas do mercado e representantes do setor sobre os impactos das tensões geopolíticas no mercado de petróleo, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que as ameaças não desencadearam uma disparada

Movimentos pontuais no mercado foram observados após atos e declarações recentes, como a ordem de ataque contra a Venezuela e as menções a um possível ataque ao Irã por parte de Trump, mas os efeitos acabaram sendo de curta duração.

Na abertura da semana, o barril Brent subiu e caiu em poucos dias, com números que ilustram bem a oscilação: “Na segunda-feira, o barril do petróleo Brent, referência para o mercado, subiu 1,6%, para US$ 61,76. Na terça-feira, despencou 7%, para US$ 60,70”, segundo dados da consultoria Elos Ayta.

Em outro momento, o preço subiu mais de 4%, “de US$ 63,87 para US$ 66,52”, diante do temor de interrupções na produção iraniana e no tráfego pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado por navios no planeta, de acordo com o levantamento citado pelo g1.

Oferta elevada e expectativas predominantes

Para analistas, a explicação principal está na dinâmica de oferta e demanda. Há um consenso no mercado de que os balanços para 2026 apontam para excesso de oferta, e isso limita valorizações mais duradouras do preço do petróleo.

Como resumiu o responsável pela cobertura de óleo e gás da XP, Régis Cardoso, “O mercado tem uma expectativa de baixa para os preços do petróleo. Há um consenso de que os balanços de oferta e demanda para 2026 indicam excesso de oferta”.

Cardoso ainda acrescentou, em relação ao impacto das ameaças, que “Isso ainda é uma discussão sobre riscos futuros. O que aconteceu até o momento não teve efeito sobre os balanços de oferta e demanda do mercado”, completa Régis Cardoso, citando que muitos desses riscos já estão incorporados ao preço.

O papel de Trump, Irã e Venezuela

Grandes movimentos geopolíticos recentes tiveram origem nas ações e na retórica de Donald Trump. Entre os acontecimentos, está a ordem de ataque que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro e declarações sobre uma administração temporária das vendas de petróleo venezuelano pelos EUA.

No caso do Irã, país fundador da Opep e descrito como o 5º maior produtor de petróleo do mundo na matéria consultada pelo g1, a proximidade ao Estreito de Ormuz elevou temores de interrupção no tráfego marítimo e impactos na oferta.

Mesmo assim, representantes do setor ponderam que mudanças duradouras na oferta exigiriam investimentos e tempo. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, afirmou que “Algumas refinarias conseguem processar, mas isso exige tecnologia e conhecimento técnico. E essa é uma capacidade que a Venezuela hoje não tem”.

Além disso, estudos do IBP apontam que seriam necessários cerca de dois anos para iniciar projetos de retomada da produção na Venezuela, e pelo menos oito anos para recuperar os níveis históricos mais altos, quando o país chegou a produzir mais de 3 milhões de barris por dia nos anos 1970.

Impactos para o Brasil e projeções para 2026

Se o preço do petróleo ficar na faixa projetada pelo mercado, entre US$ 60 e US$ 65 por barril em 2026, haverá efeitos positivos e negativos para a economia brasileira.

Por um lado, preços mais baixos tendem a reduzir a pressão sobre os preços de gasolina e diesel, o que auxilia no controle da inflação, especialmente no curto prazo. Por outro lado, receitas do governo, como royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras, podem cair, pressionando as contas públicas.

O diretor-geral da ANP, Artur Watt, destacou a importância de separar oscilações de curto prazo de efeitos na oferta, ao dizer, “O preço do petróleo já vinha em trajetória de baixa. Mas é normal que as notícias tragam oscilações”.

Em resumo, a combinação de excesso de oferta global, custos de recuperação de produção em países como a Venezuela, e riscos geopolíticos já precificados, ajuda a explicar por que as ameaças recentes não detonaram uma disparada do preço do petróleo, e por que as projeções do mercado para 2026 seguem, por ora, na casa dos US$ 60 a US$ 65 o barril.