Apesar da queda do preço do cacau para produtores, a indústria comprou amêndoas antecipadas e tem mantido margens, por isso o preço do cacau não derruba o preço do chocolate até o segundo semestre
O consumidor enfrentará mais uma Páscoa com o preço dos ovos e barras elevado, mesmo com o preço do cacau em queda no campo.
A indústria comprou grande parte das amêndoas e dos subprodutos quando os preços internacionais ainda estavam em patamares recordes, e isso mantém os custos de produção mais altos no curto prazo.
Conforme informação divulgada pelo g1, a combinação de compras antecipadas, recuperação da produção e menor demanda da confeitaria explica a aparente contradição entre preços pagos ao produtor e preços nas prateleiras.
Por que o chocolate segue caro na Páscoa
As fabricantes de chocolate trabalham com estoques comprados com antecedência, por isso repassam ao consumidor valores firmados meses antes, quando o preço do cacau estava alto.
Como explica o analista da StoneX, Lucca Bezzon, “As fabricantes de chocolate compram a manteiga e o pó de cacau das moageiras com uma antecedência de 6 a 12 meses”.
Segundo a matéria, “Para a produção dos chocolates desta Páscoa, a indústria chegou a pagar entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos do cacau. Hoje, esse valor já caiu para cerca de US$ 3 mil”, o que mostra o descompasso entre custo histórico das compras e preços atuais ao consumidor.
O sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, Carlos Cogo, diz que “A indústria de chocolate passou por anos de margens apertadas devido ao déficit global de cacau e, agora, está priorizando a recuperação de suas margens de lucro antes de repassar qualquer redução ao consumidor”.
O que motivou a disparada de preços e por que o preço do cacau caiu no campo
A alta do chocolate nas prateleiras em 2024 foi causada pela forte redução da colheita no Brasil e nos principais produtores africanos, por conta de El Niño, pragas e clima atípico, segundo a reportagem.
Na prévia da inflação de fevereiro, o chocolate em barra e o bombom acumulam alta de 26%, em 12 meses, segundo o IBGE, dado que mostra o impacto direto no bolso do consumidor.
Depois da alta, os preços pagos ao produtor começaram a recuar no fim do ano passado, por fatores que incluem recuperação parcial das colheitas e, segundo analistas, menor demanda industrial.
Bezzon afirma que “a queda de preços no Brasil é muito mais por falta de demanda do que realmente por uma recuperação da produção” e que mudanças nas fórmulas dos chocolates também reduziram compras de subprodutos.
Como aponta a reportagem, “Como as indústrias de confeitaria diminuíram a compra de subprodutos [do cacau], as moageiras (processadoras) também reduziram as compras de amêndoas, fazendo os preços no Brasil despencarem”.
Em mercado internacional, “Em janeiro de 2025, o preço do cacau chegou a US$ 10 mil por tonelada na Bolsa de Nova York, considerando a média mensal. Um ano antes, a cotação girava em torno de US$ 4 mil por tonelada”.
Proibição de importação da Costa do Marfim e risco sanitário
O governo brasileiro suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, principal fornecedor do Brasil, citando risco de entrada de pragas e de mistura de grãos de países sem autorização.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou, “Se de fato isto está acontecendo, começamos a correr risco sanitário da amêndoa que entra no Brasil, […] Tem que ter certeza do que está entrando, para não ter risco de trazer doença para a nossa cultura cacaueira”.
Analistas consultados pela reportagem, porém, não preveem falta de amêndoa no mercado brasileiro, porque o país é majoritariamente abastecido por produção nacional e faz importações sazonais na entressafra.
Carlos Cogo observa que “E, no caso de o Brasil precisar de cacau, pode recorrer ao Equador, que está com uma grande safra”, e Bezzon acrescenta que “Hoje, não existe incentivo financeiro para que a Costa do Marfim compre cacau de países vizinhos para revendê-lo ao Brasil”.
Dados da StoneX Brasil citados pela reportagem mostram que, em 2025, a produção brasileira de cacau alcançou 186.137 toneladas, enquanto as importações chegaram a 42.199 toneladas, segundo dados da StoneX Brasil, e que do total do volume importado, 81% teve origem na Costa do Marfim.
Quando o chocolate para o consumidor pode baratear
Apesar da queda do preço do cacau na origem, a redução nas prateleiras deve ser gradual, envolvendo normalização de estoques e decisão das indústrias de repassar a queda.
Carlos Cogo e Lucca Bezzon projetam que a queda de preços no supermercado deve começar a aparecer a partir do segundo semestre do ano, caso os preços internacionais e domésticos do cacau se mantenham baixos.
Enquanto isso, produtores sentem a pressão, e na Bahia, por exemplo, “os agricultores estão recebendo R$ 200, em média, pela arroba do cacau, valor 70% abaixo do que há um ano”, segundo a reportagem.
Em suma, o preço do cacau no campo já caiu, porém o efeito na ponta do consumidor demora porque a indústria trabalhou com compras antecipadas, e só uma continuidade na queda de preços e decisão de repasse das margens permitirá que o chocolate fique mais barato ao longo do segundo semestre.