quinta-feira, junho 4, 2026

Preço do cacau cai no campo, mas chocolate seguirá caro na Páscoa, entenda por que indústria ainda não repassou queda e quando o preço pode cair

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Saiba por que o preço do cacau recuou para produtores, por que o consumidor paga chocolate com alta de 26% e quando a redução deve chegar às prateleiras

O produtor de cacau tem recebido menos pelo grão, enquanto o chocolate segue com preços elevados nas prateleiras, especialmente na Páscoa.

Isso se deve a compras antecipadas da indústria, ao comportamento das cotações internacionais nos últimos meses, e à estratégia das empresas de recompor margens após anos de aperto.

As informações a seguir foram compiladas conforme informação divulgada pelo g1.

Por que o chocolate segue caro na Páscoa

Mesmo com a queda do preço do cacau no campo, os consumidores enfrentam uma Páscoa com produtos caros, porque as fabricantes compraram matéria‑prima com antecedência, quando as cotações internacionais estavam em patamares recordes.

Como explicou o analista Lucca Bezzon, da StoneX, “As fabricantes de chocolate compram a manteiga e o pó de cacau das moageiras com uma antecedência de 6 a 12 meses”.

Para a produção desta Páscoa, segundo Bezzon, “a indústria chegou a pagar entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos do cacau. Hoje, esse valor já caiu para cerca de US$ 3 mil.”

Enquanto o produtor recebe menos, a indústria tem aproveitado a janela para recuperar margens, conforme avaliação de Carlos Cogo, sócio‑diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, que afirma, “A indústria de chocolate passou por anos de margens apertadas devido ao déficit global de cacau e, agora, está priorizando a recuperação de suas margens de lucro antes de repassar qualquer redução ao consumidor”.

O que motivou a disparada de preços

A alta do chocolate nas prateleiras é resultado de uma forte queda na oferta global em 2024, principalmente por perdas de colheitas em grandes produtores, como Costa do Marfim e Gana, em razão do fenômeno El Niño, e por pragas e doenças.

Com menor oferta, mercados de maior poder aquisitivo disputaram o volume disponível, elevando preços domésticos no Brasil mais rápido do que as cotações internacionais, segundo análise de mercado.

Dados oficiais citados na apuração mostram que, em janeiro de 2025, a cotação do cacau chegou a US$ 10 mil por tonelada na Bolsa de Nova York, em média mensal, contra cerca de US$ 4 mil por tonelada um ano antes.

No Brasil, a prévia da inflação de fevereiro do IBGE registrou alta de 26% em 12 meses para chocolate em barra e bombom, um reflexo direto dessa pressão de preços.

Por que o preço do cacau caiu no campo

A partir de meados do ano passado, as cotações pagas ao produtor começaram a recuar, por motivos diversos e com interpretações distintas entre analistas.

Carlos Cogo aponta recuperação de colheitas no Brasil e em países africanos como fator de queda, além do aumento de importações puxado pela desvalorização do dólar.

Já Lucca Bezzon, da StoneX, atribui a queda no Brasil mais à queda da demanda da indústria de confeitaria, que reduziu compras após a alta excessiva, e não necessariamente a uma recuperação plena da produção.

O efeito prático é sentido no bolso dos agricultores, por exemplo na Bahia, onde produtores estão recebendo, em média, R$ 200 pela arroba do cacau, valor cerca de 70% inferior ao praticado há um ano, segundo reportagem do Globo Rural citada na apuração.

Suspensão de importações da Costa do Marfim e o impacto no mercado

O governo brasileiro suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, maior fornecedor do Brasil, alegando risco sanitário por possível mistura com grãos de países sem autorização, como Libéria e Guiné.

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou, “Se de fato isto está acontecendo, começamos a correr risco sanitário da amêndoa que entra no Brasil. […] Tem que ter certeza do que está entrando, para não ter risco de trazer doença para a nossa cultura cacaueira”.

Analistas consultados dizem que a medida não deve provocar falta de amêndoas nem pressionar preços no país no curto prazo, porque o mercado brasileiro é abastecido majoritariamente pela produção nacional e recorre à importação de forma sazonal.

Dados de mercado citados indicam que, em 2025, a produção brasileira alcançou 186.137 toneladas, enquanto as importações somaram 42.199 toneladas, sendo 81% desse total originário da Costa do Marfim, conforme levantamento da StoneX Brasil.

Quando o preço do chocolate pode cair para o consumidor

Especialistas ouvidos acreditam que, se os preços internacionais e domésticos do cacau se mantiverem em patamares mais baixos, haverá uma normalização gradual dos preços ao longo do ano.

Carlos Cogo estima que a queda nos preços no supermercado deve ocorrer a partir do segundo semestre, hipótese alinhada à visão de Bezzon, que prevê uma normalização gradual caso a oferta e a demanda se estabilizem.

Entre os fatores que podem acelerar esse repasse estão a manutenção de estoques maiores, contratos menores de compra antecipada pelas indústrias e a recuperação sustentável da produção nos centros cacaueiros.

Por ora, a combinação de compras antecipadas, recomposição de margens pela indústria e o efeito acumulado de 26% de alta no ano mantém o chocolate caro para o consumidor nesta Páscoa.

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