Pressão de Trump força países europeus a repensar Otan, buscar parcerias com Japão, Coreia e Austrália, e lidar com gastos, tecnologia e divisões internas
As recentes declarações e ações do governo dos Estados Unidos, combinadas com um crescimento rápido da militarização na Europa, colocaram governos e eleitores diante de escolhas estratégicas difíceis.
Em cidades como Munique e na Baviera, símbolos públicos de defesa e investimentos em IA, drones e aeroespacial mostram que a segurança passou a ser prioridade visível e cotidiana.
Enquanto ministros debatem reforços, cidadãos e instituições avaliam se as alianças tradicionais bastam, ou se é necessário ampliar coalizões com países fora da Europa, conforme informação divulgada pelo g1
A militarização e o receio público
O clima de insegurança é mensurável, com mais de dois terços dos europeus (68%) consideram que o país em que vivem está sob ameaça. A preocupação foi reforçada por alertas oficiais na Alemanha, onde o Escritório Federal de Proteção Civil e Assistência a Desastres recomendou que os alemães mantenham em casa alimentos estocados para três a dez dias, pela primeira vez desde a Guerra Fria.
Ao mesmo tempo, campanhas visuais afirmam que “A segurança da Europa está em construção”, sinalizando uma mudança de postura pública e de investimento em infraestrutura e tecnologia de defesa.
Relação com os EUA em tensão e discursos em Munique
A presença e o tom do governo dos EUA reacenderam incertezas nas capitais europeias. A crise em torno da Groenlândia e episódios como a suspensão temporária do compartilhamento de inteligência com a Ucrânia deixaram marcas duradouras na confiança transatlântica.
Na Conferência de Segurança de Munique, líderes europeus ouviram declarações condicionais do lado americano, e houve alívio com gestos mais conciliadores, mas também apreensão diante de prioridades diferentes. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou, “Queremos que a Europa seja forte”, e lembrou que “As duas grandes guerras do século passado servem para nós como um lembrete constante de que, no fim das contas, nosso destino está, e sempre estará, entrelaçado com o de vocês.”
No debate sobre capacidade militar, Mark Rutte chamou de “uma quantia impressionante” os 150 bilhões de euros (cerca de R$ 930 bilhões) que a Alemanha planeja gastar em defesa até 2029.
Do lado americano, houve também mensagens que mudam expectativas, como a posição de Elbridge Colby, que mostrou foco renovado no Indo-Pacífico, dizendo que “Sob a liderança do presidente Trump, estamos priorizando de novo a defesa de nosso território e a proteção de nossos interesses em nosso hemisfério”.
Novas coalizões e estratégias além da Otan
Percebendo fragilidade na dependência exclusiva da Otan, países europeus buscam arranjos sob medida, com grupos menores e parceiros extraeuropeus. A chamada “Coalition of the Willing”, liderada por Reino Unido e França, é exemplo de formato pensado para dissuadir ameaças específicas e garantir a soberania da Ucrânia.
Países como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Canadá aparecem cada vez mais na lista de parceiros de afinidade, em áreas que vão além da defesa, incluindo segurança tecnológica, cadeias de suprimentos e energia.
No Reino Unido, Keir Starmer defendeu maior integração com a Europa em defesa, ao mesmo tempo em que manteve o compromisso transatlântico, ilustrando a busca por um equilíbrio entre dependência e autonomia.
Impacto político e econômico das escolhas de defesa
O aumento dos orçamentos militares pesa sobre cofres e eleitores preocupados com custo de vida. Muitos governos enfrentam o dilema entre elevar gastos com defesa ou preservar políticas sociais e estabilidade fiscal.
Dentro da União Europeia, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, advertiu que “Algumas linhas foram cruzadas e não podem mais ser descruzadas”, e que, sem avanços rápidos em competitividade, “um grupo de Estados-membros terá de seguir adiante sozinho”.
Analistas apontam que a Europa tem uma janela de cinco a dez anos para desenvolver capacidades convencionais suficientes, e que mudanças recentes, alimentadas pela Pressão de Trump e pelo aumento da militarização, tendem a deixar consequências duradouras na arquitetura de segurança do continente.