Pressão de Trump e militarização na Europa ampliam divisões, testam a Otan e empurram Alemanha, Reino Unido e aliados a buscar parcerias fora do continente
Crise transatlântica e aumento de gastos de defesa forçam repensar alianças, com 68% dos europeus se sentindo ameaçados e debate sobre Otan, UE e coalizões
A sensação de insegurança cresce na Europa, enquanto governos revisam prioridades de defesa e buscam novas parcerias. O clima é de urgência, e decisões tomadas hoje podem redesenhar relações por anos.
Em conferências e reuniões discretas, líderes avaliam se as alianças tradicionais bastam ou se é preciso formar coalizões sob medida com países de afinidade política fora da Europa.
As informações a seguir analisam esse cenário e as principais declarações do encontro de segurança em Munique, conforme informação divulgada pelo g1.
Pressão americana, retórica e reação europeia
A Presidência americana atual aumentou a pressão sobre aliados europeus para elevar gastos com defesa e assumir mais responsabilidades, e isso tem gerado fricções. No encontro em Munique, conversas privadas refletiram uma desconfiança crescente, após episódios como a crise envolvendo a Groenlândia e a suspensão temporária do compartilhamento de inteligência com a Ucrânia.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, buscou uma mensagem de proximidade na conferência, afirmando, traduzindo o teor do discurso, “Queremos que a Europa seja forte”, e recordando que as duas grandes guerras do século passado mostram como os destinos estão entrelaçados.
Ainda assim, a oferta dos EUA foi apresentada como condicional, com ênfase em convergência de valores, o que deixou líderes europeus divididos sobre quanto confiar em garantias externas e quanto investir em autonomia.
A Alemanha, o salto nos gastos e a nova postura
A mudança mais visível está na Alemanha, que anunciou um plano de gastos em defesa de 150 bilhões de euros até 2029. Mark Rutte descreveu esse montante como “uma quantia impressionante”.
Além do orçamento, a Alemanha se tornou o maior doador individual de ajuda à Ucrânia, e regiões como o sul da Baviera se transformaram em polos de tecnologia militar, com foco em inteligência artificial, drones e aeroespacial.
O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, afirmou que “Nós nos acostumamos ao forte apoio dos EUA; nos acostumamos à nossa zona de conforto na qual costumávamos viver. Esse tempo acabou, definitivamente acabou”, apontando para uma mudança de mentalidade sobre dependência de proteção externa.
Divisões internas e surgimento de coalizões sob medida
As pressões externas ampliam fissuras internas na Europa. Segundo pesquisa do Eurobarometer citada pelo g1, mais de dois terços dos europeus, 68%, consideram que o país em que vivem está sob ameaça.
Especialistas e diplomatas veem uma divisão entre países do norte e leste, que pressionam por maiores gastos e prontidão, e países do sul, reticentes em ampliar orçamentos de defesa em meio a desafios econômicos.
Em resposta, surgem coalizões específicas, como a chamada Coalition of the Willing, liderada por Reino Unido e França, e grupos que incluem países não europeus, como Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul, em ações focadas, que vão além da Otan e da UE.
Além da defesa, a busca por autonomia estratégica
O debate não se limita a armamentos. A França, por exemplo, defende maior “autonomia estratégica” europeia em energia, cadeias de suprimentos e tecnologia, como forma de reduzir riscos frente a potências externas.
Ursula von der Leyen advertiu que “Algumas linhas foram cruzadas e não podem mais ser descruzadas”, sintetizando a sensação entre autoridades de que a relação com os EUA foi marcada por rupturas difíceis de apagar.
Ao mesmo tempo, conselheiros americanos apontam para uma priorização do Indo-Pacífico, deixando a Europa com a necessidade de se tornar parceira mais capaz, e não dependente, de apoio externo.
O resultado é um cenário em que a militarização na Europa e a pressão de Trump aceleram debates, dividem alianças tradicionais e incentivam soluções diversas, das reformas na Otan a coalizões flexíveis com parceiros globais, com impactos que vão além da área militar.