Relato fictício da Citrini Research projeta 10,2% de desemprego e queda de quase 40% no S&P até 2028, e provocou vendas em tecnologia, financeiros e pagamentos
Um post de blog que simula um relatório de 2028 gerou quedas fortes em ações de tecnologia e virou debate sobre os riscos da inteligência artificial, com previsões alarmantes sobre emprego e crescimento econômico.
O texto, publicado pela Citrini Research, descreve um cenário de “PIB fantasma” e desemprego em massa, e foi apontado por analistas como fator por trás do recuo no mercado na segunda-feira, 23 de fevereiro.
Conforme informação divulgada pelo g1
O que o texto afirma
A postagem da Citrini Research é escrita como um relatório de 30 de junho de 2028, e relata um mundo com desemprego de 10,2% e queda de quase 40% do S&P. O blog, que os autores definem como um “exercício mental”, sugere que a inteligência artificial substituiria grande parte do trabalho de colarinho branco, elevando a produtividade, mas reduzindo salários reais.
No texto, os autores explicam o conceito de “PIB fantasma”, citando que se tornou uma expressão para “produção que aparece nas contas nacionais, mas nunca circula pela economia real”. A análise descreve um ciclo em que ganhos de eficiência levam a demissões, queda no consumo e mais investimento em automação, criando um “ciclo vicioso sem freio natural”.
Impacto imediato nos mercados
Na segunda-feira, várias ações de tecnologia caíram com força, e analistas apontaram a postagem como gatilho das vendas. Datadog, CrowdStrike e Zscaler tiveram quedas superiores a 9% cada uma. A International Business Machines registrou recuo de 13%, seu pior desempenho em um único dia desde 2000, segundo o relato.
Setores além do software também perderam valor, com quedas naquelas empresas ligadas a serviços financeiros e meios de pagamento. A American Express recuou cerca de 7%, enquanto JPMorgan, Citigroup e Morgan Stanley caíram mais de 4%. Mastercard e Visa também registraram perdas acima de 4%.
Exemplos e argumentos do exercício mental
O texto da Citrini Research menciona avanços em “agentic coding”, em que agentes de IA escrevem e testam códigos com intervenção humana mínima. Segundo o blog, clientes de software precisariam de menos mão de obra, reduzindo receitas do próprio setor que criou as ferramentas.
Outros exemplos incluem o colapso de comissões no mercado imobiliário, porque agentes de IA replicariam bases de conhecimento e eliminariam a assimetria de informação, e apps de entrega que repassariam 90% a 95% da receita aos entregadores, quebrando plataformas dominantes.
Críticas de especialistas e reações institucionais
A repercussão não foi unânime, e analistas questionaram a plausibilidade do cenário. Robert Armstrong, do Financial Times, afirmou, “A explicação mais comum para a renovada apreensão [nos mercados na segunda-feira] foi uma postagem no blog da Citrini Research sobre como a IA poderia levar à demissão de muitos profissionais de alta renda e prejudicar a economia”.
O Wall Street Journal observou que “não é preciso muito para provocar movimentos turbulentos nas ações em um mercado dominado por ações de tecnologia e ansioso pelas perspectivas da inteligência artificial”. Na visão de alguns, o mercado estaria buscando um motivo para corrigir níveis esticados.
O editor de Negócios da Fortune, Nick Lichtenberg, disse que o cenário “pode estar ignorando a adaptabilidade humana e a resposta institucional”, e que a IA “poderia eventualmente democratizar o acesso à abundância”. Lichtenberg também aponta que a ideia do PIB fantasma “pressupõe que os salários humanos substituídos desaparecerão permanentemente da economia, ignorando como os ganhos de produtividade historicamente tendem a realocar valor em vez de destruí-lo”.
Executivos de grandes bancos minimizaram o pânico. Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, afirmou, “Na minha opinião, sairemos vencedores”, ao dizer que a instituição pretende usar a tecnologia para melhorar serviços.
O que observar daqui para frente
O texto original ressalta que ainda não chegamos a 2028, e que “temos certeza de que alguns desses cenários não se concretizarão”. A publicação recomenda que investidores repensem premissas de portfólio e que a sociedade se prepare para respostas proativas.
Especialistas consultados na cobertura aconselham atenção às métricas de produtividade, emprego formal e consumo, e à velocidade de adoção real de agentes autônomos em setores sensíveis. Monitorar comunicações de empresas de software e grandes bancos pode indicar como o mercado assimila o balanço entre eficiência e demanda.
Em resumo, o episódio mostra que narrativas sobre a inteligência artificial podem mover mercados, e que o debate entre cenários extremos e adaptação humana deve continuar nos próximos meses.