O programa Friendcare da Apotek Hjärtat reserva tempo remunerado e um apoio financeiro para que funcionários fortaleçam amizades, uma aposta empresarial contra a solidão
Uma rede de farmácias sueca abriu um piloto inédito que paga tempo de trabalho para que funcionários cuidem das relações pessoais, visando reduzir a sensação de isolamento.
A medida combina minutos semanais reservados, apoio financeiro e formação sobre solidão para funcionários, e já desperta interesse entre outras empresas e autoridades.
No conjunto, a iniciativa testa se dedicar um pouco de tempo regular às amizades melhora o bem-estar no trabalho e fora dele.
conforme informação divulgada pela BBC
O dia a dia de quem participa
Yasmine Lindberg, 45 anos, é uma das 11 participantes do programa piloto Friendcare, do grupo farmacêutico Apotek Hjärtat. Ela trabalha em uma loja da empresa em um parque comercial em Kalmar, pequena cidade litorânea no sul da Suécia.
Sobre a rotina pessoal, Yasmine resume, “Estou muito cansada quando chego em casa, Não tenho tempo nem energia para encontrar meus amigos”, e conta que passa grande parte do tempo livre com os filhos adolescentes.
A mudança ofertada pelo projeto foi simples e prática, e Yasmine relata, “Eu queria melhorar as coisas para mim mesma…um empurrão para me obrigar a fazer as coisas”, e avalia benefícios imediatos, “Me sinto mais feliz, Não se pode viver só na internet como a maioria das pessoas faz hoje em dia.”
Como funciona o benefício
No piloto, os voluntários têm direito a 15 minutos por semana, ou uma hora por mês, durante o horário de trabalho, para se concentrar em fortalecer amizades ou fazer novas conexões.
O tempo pode ser usado para conversar ao telefone, fazer planos por mensagem de texto ou encontrar-se pessoalmente, e, além disso, cada participante recebeu 1.000 coroas suecas para ajudar a pagar pelas atividades durante o ano de teste.
Os voluntários também receberam treinamento online sobre como reconhecer e lidar com a solidão, curso esse que a rede de farmácias disponibilizou para todos os seus 4 mil funcionários na Suécia.
A CEO da Apotek Hjärtat, Monica Magnusson, explica a origem do projeto e a intenção, “Procuramos ver quais são os efeitos de ter a oportunidade de dedicar um pouco de tempo todas as semanas aos seus relacionamentos”, e diz que a ideia surgiu em parte de uma parceria anterior com a instituição de saúde mental Mind.
Contexto nacional e dados sobre solidão
O piloto chega em um momento em que o governo sueco elevou o tema na agenda pública, com a primeira estratégia nacional destinada a minimizar a solidão.
Dados citados no programa mostram que “cerca de 14% da população sueca afirma sentir-se solitária durante parte ou todo o tempo”, um percentual acima da média europeia, e um estudo estatal apontou que “8% dos adultos na Suécia não têm um único amigo próximo.”
Especialistas consultados destacam fatores culturais e estruturais que podem agravar o problema. O psicólogo Daniel Ek observa, “A mentalidade sueca é assim: não se deve incomodar os outros, Valorizamos muito o espaço pessoal e temos dificuldade em quebrar o gelo”, e aponta também fatores como invernos longos, moradias individuais e uso elevado de dispositivos digitais.
Ek adiciona um chamado para analisar causas mais amplas, “O que está acontecendo na sociedade que cria barreiras para nos encontrarmos e nos conectarmos? Acho que isso é algo importante a se observar”, e reforça que, “As diferenças de renda são importantes, Ter eventos e locais para ir é importante, A forma como construímos as cidades é importante.”
Reações, ambições e próximos passos
O ministro da Saúde, Jakob Forssmed, classificou a experiência como interessante e disse estar acompanhando o trabalho: “Acho isso muito interessante e estou acompanhando o que eles estão fazendo”, mas fez reservas sobre medidas oficiais, “[Mas] não vou prometer que o governo vai ampliar isso ou conceder deduções fiscais ou algo do tipo.”
A Apotek Hjärtat integra também a rede empresarial “Juntos contra a solidão involuntária”, que reúne grandes marcas nórdicas para compartilhar estratégias. Magnusson afirma que houve “muito interesse” e que representantes de outras empresas já participaram do treinamento online.
Além do piloto da rede de farmácias, um projeto em Piteå envolve cerca de 20 empresas oferecendo incentivos para atividades culturais em grupo, como uma via complementar para reduzir o limiar das interações sociais.
Na sede da Apotek Hjärtat, Magnusson admite que ainda é cedo para expandir o programa, mas relata que pesquisas internas de autoavaliação apontam “níveis mais altos de satisfação com a vida entre os participantes” após entrarem no projeto.
Enquanto isso, especialistas pedem que experiências como o programa Friendcare sejam acompanhadas por estudos mais amplos, e por políticas que analisem aspectos sociais, urbanos e econômicos que criam barreiras às conexões humanas.