Quatro mudanças na Venezuela desde a captura de Nicolás Maduro, anistia a presos, fim da estatização do petróleo, queda do dólar e reabertura com os EUA

Após a captura de Nicolás Maduro, o governo em exercício acelerou medidas econômicas e políticas que pareciam impensáveis semanas atrás

A nova fase política abriu caminho para decisões que variam de libertações de opositores a mudanças na lei do petróleo, além de intervenções no câmbio e retomada do diálogo com os Estados Unidos.

As ações, apresentadas pelo governo como iniciativas próprias, foram anunciadas também por autoridades americanas antes ou logo após a operação que resultou na captura de Nicolás Maduro, o que gera questionamentos sobre autonomia e pressão externa.

Essas quatro mudanças mostram o alcance das consequências da captura de Nicolás Maduro e trazem dúvidas sobre estabilização econômica e futuro político do país, conforme informação divulgada pelo g1.

Libertações e proposta de anistia geral

Uma das primeiras medidas do governo de Delcy Rodríguez foi ordenar a libertação de dezenas de detidos, incluindo opositores, líderes sindicais, defensores dos direitos humanos, jornalistas e manifestantes. As autoridades afirmaram que mais de 600 pessoas deixaram suas celas, número que foi contestado por organizações e familiares.

O Fórum Penal Venezuelano, citado por fontes, confirmou 344 libertações dos mais de 600 presos políticos contabilizados, criando divergência entre estatísticas oficiais e organizações independentes.

Além disso, Delcy Rodríguez anunciou a intenção de ‘promover uma lei de anistia geral, que cobrirá todo o período de violência política de 1999 até o presente’, e declarou o fechamento do centro de detenção Helicoide, local qualificado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e pela Missão das Nações Unidas na Venezuela como ‘centro de tortura’.

Fim parcial da estatização do setor petrolífero

Poucas horas após a operação que levou à captura de Nicolás Maduro, o governo norte-americano anunciou que Caracas aceitou fornecer até 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, e o próprio presidente americano afirmou que os recursos seriam controlados por ele para beneficiar o povo venezuelano e os EUA.

A estatal Pdvsa reconheceu negociações com os Estados Unidos para a venda de volumes de petróleo, e o governo venezuelano sinalizou uma revisão do marco legal que regia o setor.

Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, apresentou uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos, que reverte em parte a política de estatização iniciada em 2007, com a justificativa de atrair investimento e extrair reservas para financiar serviços públicos.

Setores chavistas criticaram a mudança. O ex-ministro Andrés Izarra escreveu que ‘No dia 29 de janeiro de 2026, a Venezuela deixou de ser dona do seu petróleo, não importa como se veja’, e executivos de empresas estrangeiras, como Darren Woods da Exxon Mobil, declararam que ‘No momento, não se pode investir ali’, citando incertezas jurídicas e históricas nacionalizações.

Dólar em movimento, inflação e intervenções pontuais

Depois da captura de Nicolás Maduro, a incerteza pegou o câmbio e a moeda local. Segundo dados oficiais, o bolívar perdeu quase 22% do seu valor frente ao dólar em janeiro, passando de 301,37 para 367,30 bolívares por dólar no mercado oficial.

No mercado paralelo, o dólar chegou a ser cotado acima de 800 bolívares logo após a operação, e depois recuou para pouco mais de 400 bolívares. Autoridades anunciaram a injeção de US$ 300 milhões provenientes da venda de petróleo para intervir no câmbio, medida apontada como principal responsável pela redução da diferença entre taxas oficiais e paralelas.

Apesar da estabilização cambial, a queda do dólar paralelo não trouxe alívio para preços domésticos, e relatos de consumidores mostram alimentos com preços em dólares em alta. As projeções do FMI citadas no levantamento indicam que a inflação fechou 2025 em 548%, um indicador que torna frágil qualquer melhora de curto prazo.

Da ameaça de insurreição à negociação com Washington

No fim de 2025, Nolásco Maduro havia prometido reação e convocado greves e resistência, mas essas previsões não se concretizaram na escala prevista. Em vez disso, o governo de Delcy Rodríguez optou por dialogar com os Estados Unidos, buscando restabelecer laços diplomáticos interrompidos há quase sete anos.

Em janeiro, houve visitas de alto nível, incluindo a ida do diretor da CIA e da diplomata americana Laura F. Dogu para reabrir a embaixada em Caracas. A presidente em exercício defende que a aproximação com Washington busca ‘abordar as consequências da agressão e do sequestro do presidente da República e da primeira-dama’, enquanto dirigentes chavistas descrevem o quadro como uma forma de ocupação e tutela externa.

Analistas consultados apontam que o projeto do governo interino pode ser uma tentativa de ‘estabilização autoritária’, conciliando abertura econômica rápida com mudanças políticas lentas. A dependência do contexto internacional, e em especial da pressão americana após a captura de Nicolás Maduro, marca a ambiguidade entre soberania declarada e medidas impostas ou incentivadas de fora.

As quatro mudanças descritas aqui, da libertação de presos à reforma da lei petrolífera, passando por intervenções no câmbio e pela reaproximação diplomática, deixam claro que a captura de Nicolás Maduro provocou um ponto de inflexão na Venezuela, mas o desfecho sobre legitimidade interna, recuperação econômica e calendário eleitoral permanece incerto.