Queda do dólar, por que a moeda atingiu a menor cotação em quatro anos, os riscos de inflação nos EUA e por que analistas acreditam em nova desvalorização

A desvalorização acelerou nas últimas semanas, com recuo de até 3% em sete dias e índice acumulando quase 10% em 2025, elevando dúvidas sobre política econômica americana

A moeda americana caiu ao nível mais baixo em quatro anos diante de uma cesta de divisas, e sofreu perdas ainda maiores frente ao euro e à libra.

Movimentos recentes renovaram debates sobre os efeitos para preços nos Estados Unidos e sobre a confiança internacional na economia americana.

As explicações envolvem política comercial, expectativas de juros, e deslocamento de capitais, conforme informação divulgada pelo g1.

O que aconteceu com o dólar

Nas últimas semanas, o dólar recuou cerca de 3% em aproximadamente uma semana e alcançou o ponto mais baixo dos últimos quatro anos em relação a uma cesta de moedas.

No ano anterior, o chamado índice do dólar caiu quase 10%, o pior desempenho desde 2017, segundo a apuração da reportagem.

Parte da perda ocorreu após anúncios de tarifas de importação do governo americano em 2025, no evento chamado "Dia da Libertação", e novas tensões com parceiros, como as fricções sobre a Groenlândia.

Por que o dólar caiu

Analistas apontam que a queda reflete preocupações do mercado sobre a política econômica do governo americano, com decisões que são percebidas como irregulares e imprevisíveis.

Robin Brooks, do Instituto Brookings, afirmou, "Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações".

Chris Turner, do grupo ING, resumiu a tendência, "A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano".

Outros fatores que contribuíram incluem maior atratividade de investimentos no exterior, vendas no mercado japonês de títulos e apostas que exploram diferenças entre o iene e o dólar.

Comentário do secretário do Tesouro, Scott Bessent, negando intervenção para apoiar o iene ajudou a estabilizar temporariamente a cotação, mas incertezas persistem sobre possíveis ações do governo americano.

Impactos para consumidores e mercados

Um dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos em viagens e na importação de produtos, e pode pressionar a inflação ao elevar preços de bens importados.

Investidores buscaram refúgio no ouro, cuja cotação dobrou no ano anterior, enquanto moedas como o euro e a libra ganharam terreno frente ao dólar em janeiro.

Algumas instituições, como fundos de pensão na Holanda e na Dinamarca, reduziram posições em títulos do Tesouro americano, indicando movimento de realocação de ativos fora dos EUA.

Perspectivas e o papel das políticas

O ING projeta que o dólar pode cair mais, estimando uma queda adicional de 4% a 5% ao longo do ano, à medida que as perspectivas de crescimento fora dos Estados Unidos melhoram.

Parte da trajetória futura dependerá de decisões do Federal Reserve sobre juros, e de indicações do governo, que tem demonstrado preferência por um dólar mais fraco para favorecer a competitividade das exportações.

O presidente Donald Trump já disse que "Não parece bom, mas você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco, do que com um dólar forte", e nomeou o economista Kevin Warsh para chefiar o Fed, indicação que pode influenciar a política monetária se confirmada pelo Senado.

Especialistas advertiram, porém, que uma queda sustentada por razões políticas ruins pode sinalizar problemas maiores, e não apenas ganhos para exportadores.

O que observar a seguir

Fatores a monitorar incluem novas medidas do governo americano, movimentos nos mercados de títulos globais, e anúncios do Federal Reserve sobre taxas de juros.

Se os juros nos EUA caírem, investidores poderão buscar retornos mais altos fora do país, pressionando o dólar para baixo, e aumentando riscos de inflação interna.

Em resumo, a queda do dólar já teve impacto visível nos mercados e na formação de preços, e tende a seguir influenciada por decisões políticas, expectativas de juros e realocação internacional de capitais.