Racionamento de combustível em Cuba empurra famílias a cozinhar com lenha e enfrentar apagões, veja como o ‘combustível zero’ muda transporte, escolas e comércio
Cortes e limitação de suprimentos forçam adaptação imediata, famílias cozinham com carvão e lenha, há preocupação com aulas, transporte e atendimento de saúde diante do risco de ‘combustível zero’
Cuba vive um agravamento do racionamento de combustível que preocupa autoridades e população, com quedas prolongadas de eletricidade e restrições ao transporte.
Famílias relatam voltar a práticas dos anos 1990, como cozinhar com lenha e carvão, enquanto o governo anuncia medidas de economia e priorização de serviços essenciais.
conforme informação divulgada pelo g1
Impacto cotidiano nas famílias
Moradores descrevem filas, menos tráfego e noites às escuras, e relatam que, para várias pessoas, a rotina já inclui fogões a lenha e acúmulo de água. Uma moradora disse que “de forma parecida com três décadas atrás, sofremos cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas semanas, em mais de uma ocasião”.
O desgaste é maior entre quem não recebe remessas do exterior ou não trabalha por conta própria. O custo básico de alimentos pesa, pois, segundo moradores, “uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6”.
Além do desconforto doméstico, há consequências práticas: estudantes perdem aulas e exames por falta de transporte, e crianças ficam sem acesso à luz, internet e entretenimento em casa.
Medidas do governo e pressão externa
O governo de Havana implementou um plano de economia que inclui racionamento da venda de combustível, restrição do uso apenas a atividades econômicas imprescindíveis e serviços essenciais, além de priorizar aulas semipresenciais e trabalho remoto quando possível.
Em discurso recente, o presidente Miguel Díaz-Canel afirmou, “Vamos viver tempos difíceis”, ao anunciar o pacote extraordinário. O contexto internacional agravou a situação, com medidas dos Estados Unidos destinadas a dificultar o acesso da ilha ao combustível, após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas no dia 3 de janeiro.
Houve relatos de ameaças de penalidades a países que enviassem petróleo a Cuba, e pressão para limitar suprimentos da Venezuela e do México, embora o México tenha enviado ajuda alimentar, com “dois navios carregados com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares” que saíram do porto de Veracruz em 8 de fevereiro, e previsão de “mais 1.500 toneladas de alimentos” em carregamentos futuros.
Comparação com o Período Especial e análises econômicas
Para muitos cubanos, a crise atual traz lembranças do Período Especial dos anos 1990, após a queda da União Soviética. O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, observou que, “Entre 1991 e 1994, o PIB desabou em mais de um terço” e que “da pandemia para cá, calcula-se uma deterioração de cerca de 11%”.
Bustamante explica que, embora a retração atual seja menor em termos percentuais, a percepção de gravidade aumenta porque a economia nunca se recuperou totalmente daquele período e porque hoje existem desigualdades mais visíveis entre quem tem acesso a lojas privadas e remessas e quem depende exclusivamente do salário estatal.
O que muda nas próximas semanas e riscos humanitários
O governo voltou a resgatar o conceito de “opção zero”, um plano que prevê sobrevivência com “zero petróleo” caso a situação piore. Entre os receios estão dificuldade de deslocamento para cuidados médicos, queda na produção de alimentos e prolongamento de apagões.
Dados oficiais citados por moradores mostram uma realidade salarial limitada, com “salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), segundo dados de novembro do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações da República de Cuba”. Para muita gente, esse rendimento mal cobre itens básicos em contexto de escassez.
Enquanto países como Rússia e México aparecem como opções para ajudar a aliviar o abastecimento, a incerteza persiste, e a população se organiza com criatividade e rotinas antigas para enfrentar o racionamento de combustível em Cuba, em um cenário que pode evoluir para cortes mais profundos caso o fluxo de petróleo seja bloqueado.
Fontes das informações utilizadas nesta reportagem incluem relatos de moradores e dados compilados por veículos de imprensa, conforme informação divulgada pelo g1.