Racionamento de combustível em Cuba, risco de ‘combustível zero’: como cubanos vivem o pior racionamento e cortes de energia em décadas

Racionamento de combustível em Cuba se aprofunda, com risco real de ‘combustível zero’, apagões longos e medidas de emergência para priorizar serviços essenciais

Cuba enfrenta uma deterioração que lembra o Período Especial dos anos 1990, com cortes de energia que já chegaram a 18 horas em alguns locais e um racionamento mais rígido do combustível.

Moradores relatam cozinhar com carvão e lenha, filas reduzidas nas ruas, aulas semipresenciais e dificuldade de deslocamento, enquanto o governo anuncia um plano extraordinário de economia.

As medidas e relatos, e os dados sobre preços e salários, são, em sua maioria, coletados em reportagens publicadas em veículos nacionais e internacionais, conforme informação divulgada pelo g1.

Rotina e adaptação nas casas e nas ruas

Em muitos bairros, famílias montaram fogões improvisados e cozinham com lenha e carvão, como descreveu uma moradora que passou a fornecer refeições prontas para três famílias da vizinhança. Vídeos e relatos nas redes sociais mostram pessoas ensinando a lavar roupa em rios e a cozinhar em fogões de chapa.

Alguns moradores conseguem amenizar o impacto por remessas do exterior ou por trabalho por conta própria, mas quem depende apenas do salário oficial sente o aperto, com um salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), segundo dados de novembro do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações da República de Cuba.

Os preços também pressionam o orçamento, uma vez que, segundo moradores, uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 (R$ 13) e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6 (R$ 31).

Decisões políticas, embargo e pressão externa

Para o governo de Havana, a crise está relacionada ao embargo econômico dos Estados Unidos, e às medidas recentes que dificultaram o acesso ao petróleo após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, no dia 3 de janeiro.

Em discurso recente, o presidente Miguel Díaz-Canel disse, "Vamos viver tempos difíceis", ao anunciar um plano de economia que inclui racionamento da venda de combustível e priorização do uso para atividades imprescindíveis, e resgatou o conceito de ‘opção zero’, criado nos anos 1990 para um cenário de zero petróleo.

Washington, por sua vez, impôs restrições que buscaram reduzir as entregas de petróleo venezuelano à ilha, e houve ameaças de tarifas contra países que ajudam Cuba, enquanto países como México e Brasil anunciam envio de ajuda humanitária, e a imprensa russa relata a intenção de enviar combustível.

Impactos nos serviços, educação e transporte

O plano cubano prevê priorizar serviços essenciais e permitir trabalho remoto e aulas semipresenciais em universidades, diante da falta de combustível e da deterioração das usinas termoelétricas, muitas delas obsoletas.

Estudantes e pais relatam escolas sem eletricidade, crianças voltando para casas sem luz, e dificuldades para quem precisa se deslocar para exames e trabalho, com relatos de pessoas que deixaram de comparecer a compromissos por falta de transporte.

O que pode vir a seguir

Especialistas avaliam que, embora o impacto percentual sobre o PIB hoje seja menor do que nos anos 1990, a economia cubana não recuperou totalmente daquela crise e a situação atual pode parecer mais grave por partir de uma base já fragilizada.

Há incerteza sobre se as atuais pressões externas provocarão mudanças políticas ou se o governo conseguirá resistir, enquanto a população se prepara para medidas de sobrevivência e para um racionamento de combustível cada vez mais severo.