Racionamento de combustível em Cuba se intensifica, governo ativa ‘opção zero’ e moradores voltam a cozinhar com lenha enquanto teme-se cenário de ‘combustível zero’

Racionamento de combustível em Cuba provoca cortes de luz, filas e restrição ao transporte, autoridades anunciam priorização de serviços essenciais e medidas de economia

A crise de abastecimento em Cuba se agravou desde meados de 2024 e, em 2026, a ilha se prepara para um cenário ainda mais severo, descrito pelo governo como uma possibilidade de “combustível zero”.

Nas ruas, há sinais de adaptação, com famílias cozinhando com carvão e lenha, estoques de água e uso de lanternas recarregáveis, enquanto serviços e universidades passam por reorganização.

O contexto envolve pressões externas, problemas em usinas e um incêndio em refinaria, e levou o governo a anunciar medidas de economia, ações que afetam transporte, escolas e comércio, conforme informação divulgada pelo g1

O que motivou o racionamento e as medidas do governo

O presidente Miguel Díaz-Canel afirmou, em discurso público no dia 5 de fevereiro, “Vamos viver tempos difíceis”, ao apresentar um plano extraordinário de economia de energia, que inclui o racionamento da venda de combustível e prioridade para serviços essenciais.

As autoridades retomaram o conceito da “opção zero”, criado nos anos 1990 para enfrentar um eventual cenário de falta total de petróleo, e reorganizam aulas, trabalho e uso de veículos para reduzir consumo.

Fatores externos e logísticos

Fontes citam medidas dos Estados Unidos que buscam restringir o acesso da ilha ao petróleo, após eventos recentes na Venezuela, e ameaças de tarifas a países que enviem combustível a Cuba.

Em resposta humanitária, o México enviou dois navios com pouco mais de 800 toneladas de alimentos e anunciou futuros carregamentos de 1.500 toneladas, e o Brasil avalia remessas de ajuda, segundo relatos divulgados pelo g1.

Impacto diário, desigualdade e adaptação

Muitos residentes relatam cortes de eletricidade de até 18 horas em ocasiões recentes, uso de lenha para cozinhar e dificuldades para deslocamento, afetando especialmente quem depende de transporte público.

Enquanto alguns conseguem apoio com remessas do exterior ou trabalho privado, outros vivem com um “salário mensal médio de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), segundo dados de novembro do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações da República de Cuba”, e relatam que itens básicos consomem grande parte da renda.

Uma moradora resumiu a rotina de adaptação em uma frase usada por fontes, “Cozinhamos com carvão e lenha para 3 famílias na vizinhança”, mostrando como a criatividade convive com o desconforto da fuligem e da fumaça.

Economia, memória histórica e cenários políticos

Para analistas, a atual crise evoca o “Período Especial” dos anos 1990, quando a queda da União Soviética aprofundou a escassez. O professor Michael Bustamante observou, sobre aquelas décadas, “Entre 1991 e 1994, o PIB desabou em mais de um terço”, e avaliou a diferença com o presente, “Da pandemia para cá, calcula-se uma deterioração de cerca de 11%. Não há a mesma magnitude.”

Bustamante também ressalta que a economia cubana nunca se recuperou totalmente do Período Especial, e que a desigualdade atual, após o surgimento de lojas privadas, faz com que a crise seja sentida de forma desigual entre a população.

Há incerteza sobre os desdobramentos políticos, com parte da população temendo pressões externas que possam agravar a crise, enquanto o governo afirma estar aberto ao diálogo com os Estados Unidos, mas “sem pressões”.

O cenário imediato continua tenso, com medidas de racionamento em curso e impacto direto na mobilidade, no acesso a serviços e na vida cotidiana dos cubanos, enquanto autoridades e governos estrangeiros negociam ajudas e restrições.