Reag e Banco Master, investigação da PF e liquidação pelo Banco Central: como a gestora foi apontada nas apurações e quais os impactos financeiros e legais
A liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central reforçou a conexão entre Reag e a Operação Compliance Zero, que contabiliza 42 mandados, bloqueios superiores a R$ 5,7 bilhões e apreensão de R$ 97,3 mil
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, nome adotado pela Reag Investimentos, em decisão anunciada nesta quinta-feira, 15.
A medida estreita a ligação entre a gestora e as investigações da Polícia Federal sobre um suposto esquema de fraudes no Banco Master, no contexto da segunda fase da Operação Compliance Zero.
No conjunto das ações, foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Dias Toffoli, e determinadas medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que, segundo a Polícia Federal, superam R$ 5,7 bilhões, além da apreensão de R$ 97,3 mil em espécie, conforme informação divulgada pelo g1.
O que é a Reag Investimentos
A Reag foi fundada em 2013 por João Carlos Mansur e tornou-se uma das maiores gestoras independentes do país, sem vínculo com bancos, chegando a administrar R$ 299 bilhões de clientes variados, incluindo pessoas físicas, empresas e fundos.
A empresa foi a primeira gestora de patrimônio a abrir capital na bolsa brasileira, e integrava um grupo que controlava a Reag Capital Holding S/A, responsável por outras empresas do ecossistema, como a CiabraSF.
A gestora ampliou presença no mercado por meio de aquisições, incluindo Hieron, Berkana, Rapier, Quadrante, Quasar e a Empírica Investimentos, especializada em crédito estruturado, e conduziu uma reorganização societária que levou ativos e plataformas para listagens na B3.
Quem é João Carlos Mansur
João Carlos Mansur, fundador da Reag, é um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero, e teve endereços vasculhados em mandados de busca e apreensão no dia 14.
Bacharel em ciências contábeis, com 35 anos de atuação no mercado financeiro, Mansur renunciou ao cargo de presidente do conselho de administração da Reag em setembro do ano passado, após a empresa ter sido alvo de uma megaoperação contra o Primeiro Comando da Capital, segundo reportagens anteriores.
Em seu histórico profissional constam passagens por PwC, Monsanto, Tishman Speyer e WTorre Arenas, e a atuação em estruturas de mercado como conselheiro independente autorizado pela CVM, além da estruturação de mais de 200 fundos de investimento, segundo informações públicas.
Operações da PF e medidas relacionadas
A ação da Polícia Federal investiga, entre outros pontos, captação de recursos, aplicação em fundos e eventual desvio para patrimônios pessoais ligados ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a familiares, segundo a investigação.
Além da Operação Compliance Zero, a Reag já havia sido citada em apurações anteriores, como a Operação Carbono Oculto, que investigou um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, atribuído a integrantes do PCC.
Nessa investigação, foram apontadas estruturas financeiras complexas, com uso de fintechs e fundos de investimento para ocultar recursos. A PF e a Receita identificaram ao menos 40 fundos, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, e movimentações em uma fintech que alcançaram mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024.
O que diz a Reag
A reportagem procurou a empresa, que não se manifestou sobre a liquidação do Banco Central até o fechamento das informações.
No site da holding, consta um comunicado que, em trecho, afirma textualmente,
“A REAG Capital Holding S.A. vem a público repudiar alegações publicadas na imprensa que buscam indevidamente associar a companhia e a atuação de seus executivos a práticas irregulares e organizações criminosas, sem apresentar quaisquer provas de envolvimento em atos ilícitos.
A companhia reafirma que:
* atua de forma ética, transparente e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis ao sistema financeiro e de capitais, sob a supervisão permanente de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e o Banco Central;
* as estruturas societárias, fundos de investimento e participações sob sua gestão ou administração obedecem integralmente às normas de compliance, governança corporativa, prevenção à lavagem de dinheiro (Resolução nº 50/2021 do Coaf) e conheça seu cliente (Know Your Customer – KYC);
* é incorreto e descabido afirmar que tenha figurado como sócia em operações ou estruturas dos fundos sob sua administração, pois, conforme a Lei nº 8.668/1993, os bens e direitos integrantes dos fundos não se confundem com o patrimônio da administradora, não integram seu ativo e não respondem, direta ou indiretamente, por obrigações da instituição;
* está colaborando de forma ampla e proativa com as autoridades competentes, fornecendo todas as informações e documentos necessários ao esclarecimento dos fatos, convicta de que sua isenção e integridade serão plenamente reconhecidas.
São Paulo, 15 de outubro de 2025REAG Capital Holding S.A.”
As investigações seguem em andamento, com ações em vários estados e medidas que podem ter impactos relevantes na estrutura de fundos e produtos sob administração, e permanecem sujeitas a desdobramentos judiciais e administrativos.