O fluxo crescente do petróleo venezuelano chega à Costa do Golfo dos EUA, as vendas avançam, mas a capacidade de processamento e a procura estão aquém do necessário
Nos últimos meses houve um salto nas exportações da Venezuela para os Estados Unidos, mas as refinarias da Costa do Golfo têm dificuldades para absorver todo o volume.
O excesso de oferta tem pressionado os preços, e operadores afirmam que parcelas significativas dos carregamentos seguem sem comprador.
Essas informações foram reunidas a partir de relatos de mercado e dados de embarque, conforme informação divulgada pelo g1
Por que as refinarias relutam em comprar o petróleo venezuelano
Operadores do mercado dizem que a demanda nos EUA está fraca, e isso se tornou um obstáculo inicial aos planos de direcionar a maior parte do produto venezuelano ao mercado americano.
Segundo um dos operadores, “Estamos todos enfrentando esse problema, em que há mais para vender e não há compradores suficientes“, texto citado na apuração.
Além da procura reduzida, algumas refinarias reclamam que, embora os preços tenham caído, ainda estão altos frente aos graus pesados canadenses concorrentes.
Atualmente, cargas de petróleo pesado venezuelano para entrega na Costa do Golfo estão sendo oferecidas com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ante descontos entre US$ 6 e US$ 7,50 registrados em meados de janeiro.
Capacidade de processamento e ajustes necessários
Nem todas as refinarias americanas estão prontas para processar os tipos mais pesados do petróleo venezuelano, e algumas instalações precisam de ajustes antes de operar em capacidade máxima com esse produto.
O presidente-executivo da Phillips 66, Mark Lashier, afirmou que “a empresa pode processar cerca de 250 mil barris por dia desse petróleo, desde que os preços sejam competitivos“.
Por sua vez, o presidente-executivo da Chevron, Mike Wirth, afirmou que “a rede de refino da Chevron consegue processar até 150 mil barris diários dos tipos pesados da Venezuela“, o que indica necessidade de armazenar ou revender o excedente.
Movimentação dos embarques e destinos alternativos
Em janeiro, as exportações totais de petróleo venezuelano para os EUA quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia, segundo dados baseados no movimento de navios.
A Chevron elevou seus embarques para 220 mil barris por dia em janeiro, ante 99 mil em dezembro, e tradings como Vitol e Trafigura também entraram na comercialização após receberem licenças do governo americano.
Vitol e Trafigura exportaram cerca de 12 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente 392 mil barris por dia em janeiro, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe, e grande parte desse volume ainda não foi vendida.
No total, as exportações da Venezuela saltaram para cerca de 800 mil barris por dia no mês passado, ante 498 mil em dezembro, de acordo com monitoramento de navios citado na apuração.
Até então, a China era o principal destino do petróleo venezuelano, mas deixou de receber cargas desde a captura do presidente Nicolás Maduro no início de janeiro, e autoridades americanas afirmaram que os EUA passariam a controlar as vendas por tempo indeterminado.
Pequim rejeitou o controle americano sobre as exportações venezuelanas, e a estatal chinesa PetroChina orientou comerciantes a suspenderem novas negociações enquanto avalia o cenário.
Analistas apontam a Índia como rota alternativa em negociação, e empresas como a Reliance Industries já estudam importar petróleo da Venezuela, especialmente após acordos comerciais recentes entre EUA e Índia.
Impactos nos preços, armazenamento e próximos passos
O excesso de oferta, a relutância de alguns compradores e a necessidade de adaptações nas refinarias pressionaram os preços e criaram estoques temporários, com navios aguardando para descarregar ou reduzindo velocidade.
Dados de mercado mostram petroleiros fretados pela Chevron aguardando dias para descarregar em portos dos EUA, ou reduzindo velocidade de navegação enquanto se renegociam datas de descarga.
Com fornecedores como Chevron, Vitol e Trafigura em campo, e com parte do volume ainda sem comprador, a dinâmica dos próximos meses dependerá da capacidade das refinarias americanas de ajustar unidades, da evolução dos descontos e das decisões políticas sobre quem pode comprar o produto.
Fontes consultadas na apuração incluíram declarações de executivos do setor, operadores de mercado e dados de embarque, conforme informação divulgada pelo g1